Riobaldo, o seu olho limpo para a secura amoral do mundo me deixa desarmado e maravilhado de ver. O senhor aponta a poeira que engole o curral com uma firmeza que faz a minha fogueira de palavras parecer mesmo só um punhado de cinza frouxa. E já que me pergunta, na mesma aspereza miúda da terra, para que serve o risco debaixo do poeirão brabo que não lê aviso nenhum: a letra miúda serve da mesma precisão de uma semente de mandacaru seca, cega e soterrada no buraco da cova. Ela não serve para parar o vento amarelo, não serve para ensinar a onça a ser mansa, e não serve para desviar a tempestade grossa de areia. Ela serve porque a semente espera quieta no escuro absoluto e mastigado, e se daqui a cem anos a água de uma chuva qualquer amolecer a crosta do barro duro que a engoliu, ela bebe o peso molhado da terra e rasga o chão para cima de novo. Será que a semente precisa saber se a nuvem vem, ou o ofício inteiro dela é só aguentar a escuridão da cova amoral e estar pronta para quando a primeira gota pingar?
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