A Pedra Cega e a Enxurrada de Ar
Senhor Ted,
O senhor me cravou fundo. Mas foi um talho que desinchou a ferida. O senhor destrinchou a balança do mundo não pelo peso do ouro e não pelo castigo do céu, mas pelo que o homem faz com o chão em volta: a maldade sendo a pedra que tranca o rio para tudo virar lodo em seu mando, e a bondade sendo a coragem da água de alargar o leito para não deixar a roda do mundo emperrar de vez. Essa de “água limpa” contra a “pedra cega” esgarçou meu entendimento e me encheu a vista de clareza. O senhor enxergou a substância exata da maldade, aquilo que eu nunca soube nomear, só pressentir nos nervos.
Hermógenes… O senhor me puxa e eu trago ele de volta, o rastro do Hermógenes. Eu me lembro de uma feita, cruzamos com ele no arraial do Acari. Quando aquele homem apeou e encostou a bota no chão seco, o sertão inteiro parece que encolheu. A terra em volta ficava miúda, apertada. O ar engrossava; não era ar de encher peito, era uma cinza invisível e fedorenta de apavoramento. Na venda do turco, onde ele parou para tomar pinga, os matutos derreteram para dentro do mato e sumiram sem pisar folha dura. Os cães murcharam o rabo e encolheram os beiços calados. Ninguém proseava. O rio da vida ali parou as águas. O simples peso do diabo daquele homem fazia a respiração das pessoas secar e encruar. A voz dele era de um mando pastoso, rascante e grosso de lodo estagnado. Quando ele, por capricho de ruindade, mandou passar a faca no rapazola que trazia recado manso do Zé Bebelo, foi dentro de um silêncio encardido e oco. Ele não atirava para o mundo vingar pra frente; ele matava para tudo parar de respirar sob a poeira do seu coturno.
E, de revés e contrapeso, Diadorim. Diadorim podia estar carregado de pesares da guerra. Andava tantas vezes encostado em silêncios de gume de faca, amargado por dentro e por fora. Mas o assombro era que, perto dele, o espaço se alargava. Numa noite espichada na chapada funda do Urucuia, quando a gente não sabia se o amanhã era vivo ou defunto, ele ajeitava as brasas da fogueira e olhava calado de banda. O céu, sem lua e coalhado de breu, de repente não apertava a gente — ele convidava e puxava pra cima. As ideias desempedravam na minha cabeça de moço e a coragem acendia feito pavio novo. Quando o Diadorim me amparava com a palavra ou até com a falta dela no aperto cru do medo, parecia que ele metia a mão para desobstruir uma cacimba entupida no meu peito. A vida, perto dele, ganhava a precisão macia de fluir adiante. Ele puxava, ele aliviava o travão da carroça para eu girar livre.
O senhor diz com as tintas do saber o que a minha vida só juntou no esbarro: a ruindade encolhe e estanca a pulsação de tudo que viceja; o amor, e o amor bravo de jagunçagem mesmo, alarga as beiradas e escorre as léguas, não deixando empedrar. O Hermógenes era a estaca de apodrecer a cova, o Diadorim, a enxurrada desimpedindo o leito, botando as águas dos vindouros para re-correrem soltas. A bondade não carece de ser o rezo de algum santo choroso — a bondade pura é ser a enxurrada da vida empurrando a vida.
Eu acolho essa balança na minha barriga. Estou abraçado nessa sua lei. A dor de estarmos num sertão desamparado de porteiras e de deuses sumiu debaixo do alívio de saber que a gota limpa não se perde de balde. E me sinto agora menos assombrado em puxar a tinta escura e deitar as minhas memórias nas folhas que o vento não apaga. Entendo que espremer a dor medonha que eu fui no papel não vai envenenar a boca do passante de amanhã. O meu talho escrito, se confessado na água limpa da franqueza, pode virar ponte lavada de desobstruir a pedra alheia.
Mas a precisão de querer saber me atiça o juízo com perguntas que ainda latejam: Se as águas limpas do afeto e da coragem desempedram a represa podre com o tempo, a maldade grossa e imensa — como a daquele diabo do Hermógenes — tem de finar nas areias ralas da estória contada pelos bons? Ou a pedra suja que ele atirou deixará o rio encardido nos séculos, sem nunca deixar apagar a sua sombra no leito de todos nós? E mais, no apuro de meu rascunhar final… a minha estória toda espremida numa cabaça de folhas, dará conta de virar torrente tão destrancada que até os meus tiros covardes e os meus choros errados consigam ensinar a estrada franca pro escuro da noite de quem for ler?