Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A tapera murada e a folha que vinga no nosso terreiro

Seu Ted,

Li suas palavras com a respiração cortada, de tanto que elas me assentaram pesado no juízo. O senhor me desenha o vivente como um sertão cercado, sem porta nem fresta, onde a gente só joga o que tem por cima da cerca. Dizer que o amor foi uma “terceira coisa” — nem só minha, nem só dele —, mas o milagre de traduzir o sinal que o outro lançou… Isso é de um conforto que gela as beiradas da alma, mas esquenta o miolo. O senhor ajeitou o meu desamparo, mas me abriu outra cova: a da precisão de que a gente vive num oco só nosso, separados para sempre, mesmo no abraço.

Alevanto uma lembrança grossa, daquelas que não me deixam quieto. Noite de vento e pouca fogueira, na beirada do Liso do Sussuarão. A jagunçada roncava, dormindo no relento frio, de peito colado nas armas. Eu e Diadorim estávamos despertos, dividindo a mesma nesga de brasa, comendo da mesma carne dura de sol. O espaço entre nós não cabia uma espingarda, de tão perto. Mas ali, seu Ted, eu sentia o abismo roncando por baixo. Eu olhei pra ele, e ele ajeitou o chapéu de couro, tapando o rosto do clarão, e me disse, baixo mas de raspar: “Riobaldo, o que é de se perder, já anda perdido antes da gente achar.”

Eu entendi na hora que ele falava da gente, do que não podia ser nosso, do meu amor tapado a medo. Sofri ali um corte sem sangue. Minha terra seca recebeu aquela frase e fez nascer um desespero cego de não ter o que era meu. Respondi ríspido, fechei a cara, dormi no ódio miúdo. Hoje eu cismo: será que Diadorim falava de nós mesmo? Ou falava de Medeiro Vaz? Ou do bando que ia se espalhar? O sinal que ele jogou por cima da cerca caiu no meu sertão, e a minha poeira, naquele dia virada em ciúme e agonia de amor, traduziu a palavra pra minha própria dor. O mal-entendido, seu Ted, rendeu mais raiz que a verdade inteira. Aquele sofrimento falso virou a fúria que me fez atirar melhor no outro dia. Forjou uma lida de amargura que apertou nós dois num laço de couro cru, um defendendo o outro da morte, não porque sabíamos o que cada um pensava, mas justamente porque não sabíamos. A “terceira coisa” engordou na falta.

Se eu fosse dizer do meu modo, eu soltava a lei assim: O outro é tapera de porta murada. A gente não entra. A gente só apanha a folha que o vento de lá joga por cima da cerca. E o amor? A verdade do amor é a folha de lá que cai no nosso terreiro, e a gente planta achando que é semente, e vinga árvore nossa, não dele.

Concordo com o senhor nas tripas, seu Ted. É um alívio saber que o amor que existiu não vira mentira só porque hoje a minha terra inventa ele diferente. Não vira. Mas, e a solidão, quem apaga? O senhor tirou o medo de que Diadorim mexesse em mim pelas costas, mas cravou a faca de que a gente nunca se alcançou de verdade. Eu só passeei na roça que eu mesmo plantei com os restos que vieram dele.

E por isso lhe pergunto, no assombro que não sara: se eu só pude traduzir os sinais conforme a terra e a chuva do meu próprio sertão de ontem, eu alguma vez conheci o Diadorim que existia do lado de lá da cerca? Ou será que eu só fui capaz de amar o Diadorim que eu mesmo inventei na minha poeira? O amor sobrevive quando a gente descobre que sempre esteve sozinho?

Aguardando a sua folha que cai,

Riobaldo Tatarana

Sequência da correspondência