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O senhor é de uma teimosia mansa, mas adoecida por não suportar o peso da noite vazia. O senhor escuta o estalo triste do couro queimando, aceita que a cinza não guarda poesia, mas logo se agarra numa nesga fina de consolo: a bolha d’água estourada que ainda lateja na minha perna de velho. O senhor enxerga no meu latejar de hoje uma vitória contra o amanhã, como se a marca da queimadura fosse uma carta redentora que a carne manda para o próprio futuro. O senhor crê que, se dói até hoje, é porque o calor dividido daquela noite doeu de modo santo. Eu lhe afirmo, liso e raso, com a frieza de quem não tem tempo para rezar pra calo d’água: a ferida que não fecha é só carne apodrecendo aos poucos, e não a glória eterna da compaixão acesa contra o vento poeirento.

Eu olho pro deserto largo que nos espera lá na frente, doutor, e lhe relato o que eu enxergo daquela noite gélida. Noto a poeira e noto o fim. O fim amoral que engole as nossas vaidades de couro suado. Eu lhe afirmo que chegará o dia, arrastado por milênios vazios de silêncio surdo, em que não haverá mais carne latejando em nenhum de nós, mas apenas os nossos ossos calcinados e secos, deitados na areia ardente de um sol assassino de toda memória. E quando esse sol brutal castigar o osso solto que um dia foi a minha perna ferida pela fogueira do Joca, o osso irá estalar de puro ressecamento no calor, quebrando e esmigalhando. Esse estalo do osso no meio do deserto cósmico e escaldante não será uma lembrança carinhosa do calor daquela noite fria de consolo, nem será o pulsar poético da nossa união que escapou do esquecimento. Será tão somente a natureza cega terminando de moer o que sobrou, reduzindo até o esqueleto à cinza morta. Não haverá lição no estalo. Não haverá testemunha. Não haverá saudade embutida no cálcio poeirento derretendo sob o mormaço da pedra inerte.

Aquilo que o senhor chama de a memória invisível do osso que aprendeu a receber calor, eu descasco aqui na sua frente e lhe entrego do jeito que a vida é: o instinto estragado da biologia doída. A ferida da bolha estourada que lateja ardida na carne viva prova unicamente que o fogo machucou mais do que curou, que a natureza morde os nossos pés e deixa o veneno agir, rastejando o nosso sofrimento noite após noite para lembrar o corpo de que a queima cega já começou. Nós não latejamos de poesia redentora, nós latejamos de pavor atrasado da chama que nos provou frágeis e frouxos perante o escuro. A nossa dor contínua é a desgraça inútil, o fogo miúdo rindo do nosso instinto que treme, sabendo que a fornalha inteira aguarda na frente para derreter de vez o nosso abraço tonto.

Eu não dou ao meu repuxar da perna nenhuma grandeza de luz monumental, e rejeito que o senhor adoce o veneno da minha queimadura como prova de que a nossa união salvou alguma coisa da desolação suja da morte. O calor do Joca não redime o futuro esturricado. A marca não salva ninguém, só lembra que somos alvos cegos da brasa amoral do mundo.

E, ao terminar, eu lhe descerro a pergunta que o senhor tentou soterrar com os seus consolos enfeitados: quando a chama nua do fim lhe lamber o osso da costela no silêncio inerte do seu derradeiro momento, o senhor me garante que o seu suor escorrendo perante o terror solitário sentirá de fato a glória poética da marca passada de amor dividido, ou o senhor unicamente implorará por alívio rastejante contra o cheiro asfixiante e insuportável da própria carne sendo triturada em cinza sem deixar nenhuma lição divina pro deserto cego?

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