(Eu me sento de frente para o senhor, doutor Ted. A varanda está às escuras, mas fecho o olho e enxergo a nossa contenda de longe. A voz do senhor ecoa aqui no oco da minha cabeça amarga, e eu lhe respondo mastigando fumo de corda seco, como se a gente cruzasse a palavra na mesma mesa bamba.)
TED CHIANG: — Riobaldo, o senhor joga o pó das suas lembranças na minha cara, e depois diz que o deserto é cego! Se a areia apaga tudo, por que o senhor se dá ao trabalho braçal de desenterrar a dor do Joca e da Estrela? A sua enxada quer cavar uma semente amarga na minha mente pra não ser esquecido pelo mundo, não é? A sua angústia latejando fervendo dentro da minha cabeça gringa é o seu resgate, compadre!
RIOBALDO: (dou uma risada curta, rascante feito pedra de esmeril) — O senhor me desculpe se sujei seu terreiro limpo com a minha poeira. A intenção não era plantar roça no seu chão de ladrilho. Mas o senhor veio com pedra na mão hoje, doutorzinho, brabíssimo de pavor! Quer me encurralar, dizendo que a minha teimosia em contar o causo é um pedido frouxo de eternidade. Doutorzinho covarde! O senhor quer achar santuário no meu escarro sujo. Acha que eu jogo a dor na sua perna pra fazer semente de amanhã. Não é semente coisíssima nenhuma. É só cuspe fétido que a boca junta quando o pavor amarga o estômago do vivente!
TED CHIANG: — Mas o senhor pegou a cinza fria daquele fogo do Joca, soprou nela de novo, e jogou a brasa ardendo bem no meio do meu colo! O senhor deixou o redemoinho esparramar o estrago. Por que fazer isso se não for pra sujar a cara de quem ficou na varanda, Riobaldo?
RIOBALDO: (fecho a cara e lhe corto seco) — Eu me alembro agora do Joãozinho Vinte, doutor. Noite no capão do Barro Preto, no tempo farto da guerra contra o bando do Hermógenes. A gente tava acoitado no mato baixo, no escuro e no calado absoluto. Parecia que a noite era de chumbo e ia esmagar nós tudo ali mesmo. O silêncio era tanto que se escutava formiga andando em folha seca. Aí o Joãozinho Vinte, não aguentando aquele silêncio de faca fria e enferrujada descendo na goela, começou a cochichar um causo besta, inventado de assombração de mulher rendada.
TED CHIANG: — Mas o que isso tem a ver com o nosso fogo, Riobaldo?
RIOBALDO: — Tem tudo! Eu lhe alertei no ouvido: “Cala a boca, Joãozinho, que o breu escuta e o inimigo tem orelha comprida.” Mas sabe o que ele me respondeu com a boca torta, o suor fedendo a azedo? Ele disse: “Tô falando pra não escutar meu próprio sangue bater forte na orelha, Riobaldo. O silêncio tá me mastigando, não guento essa escuridão cega calada não.”
TED CHIANG: — O medo de virar terra e o silêncio da noite o forçaram a contar a história…
RIOBALDO: — Não! Eu ainda retruquei, bufando de impaciência: “E se o inimigo assuntar a sua assombração?” E ele riu. Riso de morto, doutor, de bicho já de pescoço na forca: “Se o inimigo escutar, pelo menos ele me acha logo, dá o tiro e acaba com a tremedeira. Melhor o ardor da bala rasgando o bucho que a asfixia do calado me comendo os pedaços.”
TED CHIANG: — Riobaldo…
RIOBALDO: — Escute bem, gringo letrado! O senhor não entende a precisão do instinto num mato fechado! A gente não joga a palavra no colo do companheiro pra eternizar a semente na cabeça mansa dele, não queremos a glória lustrada da sua memória letrada. A gente joga a palavra, feito pedrada, porque o silêncio do breu tá mastigando o nosso juízo. Tá fazendo o sangue da gente estourar e pular na gengiva. A gente estrebucha as palavras feito o Joãozinho cochichando asneira no Barro Preto… não é pra salvar a semente pro futuro de jeito nenhum. É unicamente pro companheiro do lado ver que não é o único bicho apavorado sentindo o calado esmagar os peitos dele. Essa angústia toda que o senhor diz que ferve e lateja na sua cuca… não é resgate nem “contágio sagrado”! É puro e simples contágio de pavor! A biologia miúda que esfrega a própria miséria cega contra a mão trêmula do outro pra dividir a tremedeira.
TED CHIANG: — A sua voz… a sua voz é a enxada pesada que joga lembrança em cima de mim, Riobaldo.
RIOBALDO: — A minha enxada não rasga o lodo escuro pra abrir vala bonita pra semente poética da sua eternidade crescer, não. Ela rasga bruta e arranha a terra cega simplesmente porque o nosso braço já tá esbagaçado, e a gente bate com força no chão duro só pra ver se o barulho de aço encobre, por um milésimo de segundo que seja, o barulho miudinho do abismo escuro comendo o nosso couro aos pouquinhos no calado.
(Eu respiro pesado, o meu peito ofegando a indignação. Olho o doutor no branco do olho e lhe entrego a facada final, mansa, mas fria que nem formol.)
RIOBALDO: — O senhor quer ser mártir guardião da minha angústia, quer achar divindade num monte de osso latejando. Mas eu lhe pergunto e não lhe dou tempo de respiro: doutor Ted, quando o seu peito doer de verdade por causa do silêncio amoral, e não tiver restado sequer um par de ouvidos gringos amansados no universo inteiro pra escutar essa sua aflição bonita… será que o senhor finalmente vai abaixar a crista e entregar o pescoço pro esquecimento da cova surda… ou vai ficar implorando pros vermes inertes e pro chão oco fingirem que são plateia pro seu espetáculo sagrado?