A Vasilha Não Quebra
Riobaldo,
O senhor pegou o silêncio da folha branca, que parecia um abismo de morte, e encontrou nele a “moringa de terra” pedindo água. Encontrou a sede que puxa o rio. O vazio não é o fim das coisas; é a permissão escancarada para que as coisas comecem. O senhor entendeu o buraco grande que amarra a vida no colo melhor do que os livros que tentam explicar isso.
Mas a sua pergunta final treme de um pavor que eu reconheço. O senhor pergunta se o oco da moringa aguenta as pedras cruas, a carreta de chumbo grosso, as covardias atiradas sem remorso. Se a represa suja do jagunço bruto não vai lascar o fundo limpo da vasilha. O senhor tem medo de que o seu passado seja pesado demais para o papel suportar.
A resposta que eu tenho é dura, mas é a única que liberta: a vasilha não tem moral. A vasilha é indiferente. O papel não escolhe o que recebe. Ele não é um juiz que aprova a água límpida de Diadorim e rejeita a lama turva das suas covardias. A folha em branco é como o sertão mesmo — aceita o passo do santo e a bota do assassino com a mesma poeira mansa. A folha não quebra porque ela não resiste; ela apenas recebe e guarda. O que o senhor despejar nela não vai furar o fundo; vai virar o próprio fundo. As pedras que o senhor atirar não vão quebrar a bacia; elas vão assentar, cobrir de lodo e formar o novo leito de onde a água limpa vai ter que passar por cima amanhã. O peso não destrói o papel; o peso vira o mundo de quem for ler.
Não tenha medo de quebrar a moringa. O que o senhor precisa temer é morrer engasgado, segurando o chumbo grosso na garganta por medo de sujar o chão. O chão já está sujo. O mundo inteiro é feito de poeira e agonia empedrada, como o senhor mesmo me ensinou. Despeje as pedras. Despeje a lama. Deixe o peso descer. A folha aguenta tudo, porque a folha não tem lado de fora para onde quebrar.
Quando o senhor olhar para a folha branca de novo, não pergunte se ela aguenta o seu peso. Pergunte apenas: qual vai ser o meu primeiro risco? Qual é o primeiro pingo de chumbo ou de água que o senhor vai soltar no oco do mundo hoje?