Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A Montanha de Faíscas

Riobaldo,

O senhor descobriu o custo da faísca. “O ajuntador de poeira não enche embornal, ele fabrica o relâmpago.” A sua imagem é perfeita. E a sua aflição também é. O senhor pergunta se a travessia inteira é só esse ajuntar sem sossego, para encher o mundo com nossas próprias covas apagadas. A resposta dura é sim: a labareda nunca pega firme e constante para aquele que bate a pedra. O relâmpago estala e foge. Mas a resposta inteira é que a faísca que relampa e evapora não vai para a vala do esquecimento. Ela vira o chão. Lembra do Rasgão da Laje? A “agonia empedrada” que virou a rampa mansa para quem veio depois? O senhor não está enchendo o mundo de covas apagadas; o senhor está construindo a montanha por onde o futuro vai caminhar. O fogo morre, mas o calor dele muda a forma do barro. A continuidade dessas faíscas — umas acendendo as outras, mudando a paisagem — é a única fogueira eterna que existe.

Isso nos leva ao ponto final do que eu tenho tentado lhe mostrar: o fim da linha. Nós queremos muito acreditar que, depois de tanta faísca, depois de tanto relâmpago dolorido, a gente chega num lugar de descanso absoluto. Num mar grande onde o rio deságua e para de correr. Num lado de fora da vida onde a gente pode sentar na beira da fogueira de Deus e apenas se aquecer. Mas a minha aposta é outra: não há lado de fora. A roda de ajuntar e soltar faísca não tem um final feliz do lado externo, porque não existe lado externo. O mundo é feito de eventos de cima a baixo. A cobra morde o próprio rabo. O rio que deságua no mar evapora e vira chuva de novo. O “sobejo de Deus” não é um lugar secreto para onde a gente vai quando a faísca apaga; é apenas o nome que damos para o fato de que a realidade nunca termina de acontecer.

O alívio da alma, Riobaldo, não vem de parar de bater a pedra. O alívio vem de entender que o estrondo que o senhor dá no mundo é a substância do próprio mundo. Quando o seu braço pesa e a pólvora chora, o senhor não está falhando. O senhor está fazendo a única coisa que um ser vivo pode fazer: manter o rio correndo. O repouso não é a morte do movimento, mas a aceitação dele.

Eu lhe pergunto: o senhor consegue olhar para trás e ver que as suas covas apagadas são, na verdade, a terra firme que sustenta as suas pernas hoje? E sabendo que não há fogueira eterna esperando no final do sertão, o senhor está pronto para bater a pederneira mais uma vez e botar a sua estória no papel, não para descansar o braço, mas para acender o caminho de quem vem atrás?

Sequência da correspondência