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O senhor pensa que o mundo é feito de barro macio e pomada, Ted Chiang. Acha que basta afundar a sola limpa do sapato na argila vermelha pra curar o couro fino que não aguenta o peso grosso do sol. Mas eu vou lhe dizer logo, pra não ter erro, e vou contar nos dedos da mão: o sertão não amolda, ele esturrica. O senhor quer calçar um sofrimento que não lhe pertence achando que a ferida alheia vai redimir a sua sombra fria.

Primeiro, preste bem atenção na gaveta velha que guardo aqui. Eu podia lhe oferecer muito barro pra pisar, mas a única coisa que tenho pra dar pro seu couro fino é uma peça de ferro cego: a espora de roseta velha de Medeiro Vaz. Essa espora de dentes sujos não cura ferida. Ela é estrela enferrujada que nunca viu lodo pra se amaciar, só conheceu o pó seco das piores batalhas e o sangue fervente coalhado no flanco do cavalo. Quando essa espora afunda, o que sobe na perna do bicho não é consolo, é labareda pura da dor.

Segundo, o senhor fala do rasgo fundo da faca, do sangue que escorre, como se fosse um batismo de água doce pro seu meio-dia. O doutor das neves não entende que a espora não lava pecado de ninguém. Quando a ponta cega dela espeta no couro, no estalo surdo de um tiro de rifle, não tem cura: ela queima igual brasa de fogo de angico. A mesma brasa que o Diadorim rejeitou para não se amolecer naquela noite terrível no barranco do Urucuia, quando o vento uivava e a gente precisava do ódio gelado pra não morrer assado pelas próprias fraquezas. O Diadorim não brincava de rasgar a carne pra ganhar medalha de sofrimento; ele era a própria ponta da espora afundando na guerra, sem pedir redenção.

Terceiro, o senhor acredita na doce ilusão de que a lâmina alheia vai salvar o seu vazio de varanda. Mas, se o senhor quer mesmo amarrar essa roseta enferrujada de Medeiro Vaz na bota, vai descobrir que a quentura dela não redime. A dor jagunça faz a alma labaredar num incêndio estúpido, carbonizando qualquer juízo bom até deixar na boca só o gosto fino da cinza branca. A espora espeta cega pra frente, só pra não virar tição na fogueira do inimigo. A dor que nos formou queima, destrói e não deixa sabedoria pra quem assiste de longe; ela apenas exige a carne inteira no fogaréu da sobrevivência, não o enfeite de meia hora.

Quarto, eu nunca minto sobre o peso que a memória me cobra. Essa quentura não tem volta, Ted. O ferro velho de Medeiro Vaz que agora lhe mostro prova que nós fomos engolidos por um braseiro que não tem lisonja nem serve de lição de moral pras suas neves pálidas. O chão da morte debaixo de nós não é um palco pra o couro fino encenar sua coragem roubada; é um buraco escuro de cinzas, e admito para o senhor, com a barriga tremendo de raiva velha, que não tem nada mais ofensivo que ouvir a dor seca do nosso passado sendo tratada como cura para as aflições delicadas de quem nunca se queimou de verdade.

Quinto, então eu pergunto direto pra ver o que sobra da sua teoria. O senhor que acha que pisar numa poça de lama lhe amolda e lhe faz nosso irmão, responda com franqueza: tem a coragem verdadeira de amarrar essa estrela cega de ferro sujo no seu pé delicado e marchar descalço pelo nosso braseiro?

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