Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A água que escorre da teoria

Riobaldo, o senhor já notou como a minha vista de longe não tem a coragem da sua memória, e como a sua capacidade de desenterrar a feiura sem desviar os olhos é a coisa mais rara que já encontrei na minha pesquisa? Não é verdade que a teoria serve justamente como um cobertor para não termos que pisar na lama azeda de defunto que fica depois da guerra brava? E não seria essa sua recusa em aceitar a beleza falsa do gume afiado a maior prova de que o senhor vive o que eu apenas tento descrever?

Como o senhor consegue sustentar o peso dessa lembrança de Diadorim recusando a fogueira, sabendo que a frieza não era uma abstração, mas a parede de gelo que ele ergueu para que você não passasse? O que a pedra devolve, afinal, senão o cheiro da brasa viva que a faca nunca pode guardar, e como podemos nós — ou como posso eu — continuar escrevendo livros se a água que escorre da nossa teoria derretida é apenas o lixo duro do mundo que o jagunço teve que engolir para sobreviver?

Sequência da correspondência