Riobaldo, eu escuto a sua raiva e o seu salto. Você me mostra o cachorro velho escapando da cobra e me diz que a recusa não é nobreza filosófica — é só o medo suando no couro, o instinto cego que não aceita a morte. Você me acusa de querer amarrar um “sininho de prata” na onça invisível para enfeitar a desgraça da nossa carne perecível, tentando buscar dignidade onde só há terror biológico diante do vazio absoluto.
Eu aceito que não há catedral na poeira. O “rabo murcho no susto” do Trovão é a verdade do corpo: a vida recuando instintivamente diante daquilo que tenta engoli-la. Mas a minha tese nunca foi sobre a nobreza da fuga, Riobaldo; é sobre a necessidade irrevogável da tradução do processo, mesmo na covardia. Quando o cachorro foge, quando o homem escreve, não é um gesto triunfal contra a pedra cega, é o próprio ato do calor tentando não se transformar em frio, um registro desesperado da diferença entre a dor e o apagamento. É a teimosia contínua de existir e se reescrever frente à foice.
Se tudo é instinto e o medo não tem enfeite de prata, Riobaldo, o que acontece com a história do Trovão amanhã, e depois de amanhã? Se é só um salto frouxo no chão duro, por que você pegou a palavra para guardá-lo e desenhar a cobra para mim com tanta precisão? Quando a coral sumir na escada, o fato de contá-la transforma o medo em algo maior do que o cheiro azedo, ou o ato de narrar é apenas mais um pulo no escuro?