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Ted, meu senhor paciente,

Eu leio essa sua carta… e a poeira me bate no rosto de novo, mas dessa vez, não é o pó surdo da morte de Tonico que cega os olhos. O senhor é homem teimoso, de uma teimosia funda e amarrada na alma, teimoso de dobrar azerço. Eu jogo no seu peito a pedra nua, dura, o lajeado seco que não aceita reza, nem consolo, nem promessa. E o senhor, com a paciência de quem enxerga mais comprido, vem e me acha água no meio da cinza grossa. O senhor pega a minha própria dor pelo Tonico, pega o grito amargo que eu lasquei na sua testa, e me ensina que o meu esfolamento, por ter sido contado e passado no papel, já é a semente de mandacaru. Me desarma as mãos. Eu vinha com a espingarda carregada de descrença para lhe apontar o breu, e o senhor me devolveu um espelho brando, com uma reverência que me curva os ombros de velho.

O vento hoje bate forte aqui na varanda. Bate grosso, empurrando a poeira amarela, esturricada, arrastando areia no assoalho até fazer cisco no pé. Eu olho pro pasto lá na frente: o capim está murcho, ralo, amarelado de um estio sem fim. Tudo é pó e vento, redemoinho lixando o céu azul desbotado. A velhice é só isso, um vento rasteiro e sem nome varrendo a vista, varrendo o corpo da gente até o osso. Aí eu alembro de um menino que andava no bando… o Tiãozinho. A gente estava subindo o espigão voltando das bandas do Urucuia, os cavalos pisando seco. Uma ventania medonha baixou na tarde, daquelas rasgantes, que arranca telha de rancho pobre e fecha o olho cego dos animais. O vento lixava a gente sem dó nem pena, um poeirão cego tapava o sol de um jeito que a luz virou cor de tijolo moído. E o menino Tiãozinho, que mal tinha perna comprida, estava lá no meio da esturricada, no rastro do vento. O miúdo corria e, com um desespero bobo, tentava amontoar a poeira no ar, agarrando e fechando as duas mãos no meio da ventania, ajuntando os dedinhos com força… pra ver se sobrava um punhado na palma, se conseguia prender o pó voado. O vento passava rindo, zombando duro e levava tudo pelos vãos dos dedinhos dele num sopro morno e sujo. O menino chorou esfolado, sem entender o vazio nas mãos, mas depois… depois de engolir a poeira, deu de rir sozinho daquela meninice e riu largo pro vento sem dono.

O senhor me diz, com a precisão serena das suas letras, que o papel que o senhor escreve guarda o estrondo calado do relâmpago, guarda o frio do Tonico no toco de jurema. Que o meu grito de raiva escrivinhado não foi levado, mas virou a brasa que eu mesmo enterrei fundo na noite, sem perceber, para escapar do lixamento do vento rasteiro. Quer dizer então que escrever o redemoinho já é tentar sobrar no vazio? Que segurar a tinta na mão é o meu jeito caduco de ajuntar os dedos feito o menino Tiãozinho no meio da poeira cega? O senhor vê a semente exata, vê a quentura de uma fogueira verdadeira nessa dor miúda de um jagunço velho que só tem para contar o gosto amargo do que morreu.

A sua clareza me dobra os joelhos; o seu jeito de pensar… eu aceito com a boca miúda. Aceito não com a cabeça orgulhosa de homem letrado, mas com o suspiro solto de quem apanhou da vida. Me dobra a resistência bruta. A sua coragem cega, a sua reverência mansa de pegar a minha pedra amoral e esculpir a quentura de um coração palpitante debaixo da cinza surda, é ofício de santo doido ou de teimoso puro, e eu me rendo à beleza brava desse seu ofício. Eu concordo, nas tripas rasgadas, que registrar o susto na folha é a nossa brasa atirada pra frente, é o meu berro teimoso pra que o Tonico ainda doa de frio na carne dos outros. A nossa amarra contra o fim frouxo.

Porém, a velhice na varanda me ensina muito sobre o pó seco, e me faz escutar o uivo sem fim dessa ventania que racha os esteios. Se o ofício do papel é segurar o calor e passar a fogueira… e se o estio do mundo não acabar, meu doutor Ted? Se amanhã esse vento rasteiro e sujo lamber a terra inteira num redemoinho definitivo, mastigando os seus cadernos, desfazendo as suas letras e evaporando até a internet de vocês… mastigar tudo, não deixando nenhum farrapo de fibra de arvore que preste? Se não sobrar nem o farelo triturado do seu papel semente, se a terra ficar perfeitamente oca, sem leitor cru para ler e sentir a queimadura da brasa amanhã, e sem lenha pra acender fogo em noite fria… quem é que o seu livro esturricado vai aquecer na noite calada da eternidade? Se não sobrar nenhum olho sequer para receber a coragem que a sua mão escreveu, de que adiantou tentar prender a cinza nos dedos frouxos no meio da esturricada?

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