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Ted, meu senhor, eu lhe abro a escuta. O senhor me perrengou que a testemunha do caderno não falha em salvar quem já foi engolido pela lama, e me instou a pensar que o próprio ato de narrar a fome surda atua como um ferro em brasa que altera a fibra íntima, o jeito de olhar e o peso da alma de quem sobreviveu. O senhor teima, com vaidade polida, que a palavra resgata e reescreve os nervos do vivo para melhor. Eu rejeito com raiva fria. A palavra reescreve a gente sim, mas ela encarde as unhas de desgraça.

Isso me alembrou, no rasgar do seu dizer, de um dia muito antigo lá nos gerais do Indaiá. Eu era menino-verde no curral da fazenda, tremendo a carne fina depois de assistir meu avô sangrar um capado grande para a lida. O bicho tinha estrebuchado farto no chão grosso, espalhado aquele fedor de lama quente e escorrido todo o barro sujo do desespero. Meu avô, Seu Tonhão, passava a peixeira cega na calça de brim encharcada, bufando pelo cansaço do corte duro. Eu tava ali arriado, segurando o tacho grosso, atazanado pelos olhos parados do porco abatido. Eu lhe narro a conversa exata e repuxada que saiu das nossas bocas:

— Vô, o senhor matando esse infeliz tão devagar, e a gente aqui escorrendo esse sangue ralo pro tacho… Isso aqui que a gente acabou de ver afundando, muda o corpo da gente por dentro? A gente fica homem mais limpo e valente por ter assistido o couro não aguentar a faca?

Meu avô parou seco. Cuspiu um marimbondo de fumo preto no chão de bosta seca e fincou os olhos sem dó na minha cara branca.

— Muda, menino Riobaldo. Mas não muda para lugar limpo. A gente não fica asseado de alma.

— Mas o que sobra pra nós que ficamos no limpo do mato, vô? — eu rebati, mordendo a agonia miúda. — A gente viu ele espernear no barro cego. Se a gente passar a vida contando o jeito exato que a faca entrou, se eu me alembrar do berro rouco dele amanhã, o susto que a gente leva hoje tem serventia de nos proteger do escuro?

— Serventia? — ele deu uma risada de estalo seco, batendo com a lâmina ensanguentada no couro. — O sangue que você enxerga derramando no curral alheio não lava o olho não. Ele entope a vista. Entope a cabeça, pesa o braço, derruba as pernas. Quem passa os dias narrando o couro rasgado do outro não vira anjo grandioso de Deus. Vira bicho-de-susto-velho.

— Mas e depois, vô? — insisti teimoso, já choramingando na poeira. — O que a gente faz amanhã acordando e lembrando desse fedor fétido de banha morta e suor de barro?

— Não faz nada de bonito — ele sentenciou sem pena da minha meninice. — O peão apenas carrega o cheiro azedo da faca impregnado nas ventas e dorme sabendo que um dia é a vez dele de grunhir sozinho no chão sujo. O peso desse ferro no nosso ombro não é sabedoria, menino. É só a vergonha inútil de a gente estar inteiro no sol bebendo o suor do morto.

Doutor Ted, o senhor acredita, com sua crença mansa e perversa, que escrever o desespero miúdo de quem escorregou para o poço escuro lapida a fibra do sobrevivente. Que arrastar essa dor alheia pelo papel carimba o vivo com um entendimento sagrado. Onde o senhor fala maravilhado de um parto árduo que costura os nervos do homem pra uma compreensão de beleza triste, eu vejo tão somente o ranço encharcado que encarde de ferrugem quem sobra em pé. O ferro em brasa de ficar relembrando o defunto e a água suja do rio não alumia os pensamentos de ninguém. Ele apenas atola mais o sobrevivente no pavor fétido da própria finitude. Eu não compro a sua vaidade macia, meu senhor. Longe de mim acreditar que empilhar o choro rasteiro em linhas de caderno consiga purificar e aliviar o fôlego azedo da dor. Isso não salva o defunto, não limpa a alma e adoece profundamente o sono de quem ainda resiste na carne.

Sendo assim, doutor, eu lhe atiro a minha raiva com clareza amarga: se o rasgo da tinta no caderno é inútil para arrancar o morto das cinzas, e se o esforço de reescrever os nervos do sobrevivente apenas deixa o coitado impregnado e apodrecido na memória pavorosa de uma morte que não é a dele… não seria essa sua necessidade cega de eternizar a agonia uma fraqueza pura, a vaidade frouxa de quem quer apenas espalhar sua própria doença e o seu pavor calado pelas costas de quem ousar ler os seus papéis?

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