Senhor Ted. Deito as palavras desta noite na escuridão funda da varanda, ouvindo o vento assobiar um gemido fino na fresta do portal velho, porque o seu papel, debaixo desse sereno, perdeu as botas ruidosas. O seu papel entrou não esporeando meu juízo, nem cobrando de mim serventia pra um porvir de gentes que não vi. Entrou arrastando os pés e sentou na palha trançada, perguntando manso pelas dores antigas que já nem fumaça levantam mais. Não atirou lição sobre mim; deitou do meu lado uma cesta de perguntas tão desguarnecidas de vaidade, com uma voz descalça, que sinto até dó de estourar esse silêncio com o arranhar da pena no meu tinteiro rachado. O senhor hoje me encurrala pelo vão da ternura cega.
Eu não afirmo que o menino, lá naquelas distâncias de amanhã que o senhor inventou, vai descobrir o sabor da chuva molhando osbeiços na careta do projétil gasto. Não sei. Mas posso afirmar o que senti na minha própria língua, anos atrás de muito longe de agora, quando recostei a boca num cantil amassado de ferro que tinha tombado na terra batida, no meio de um poção de barro sujo de capim seco. Eu chupei a água amarela presa no risco de zinco dele, encostando a boca na poeira seca. A terra não estava querendo molhar, senhor, ela só entregava ao gosto um cheiro enferrujado de gente morta e sangue azedo misturado com ferro. Não ensinava a sede. Não consolava o medo. Só lembrava, lá no fundo do osso da cabeça, o gosto daquilo que passou pesando e nunca mais voltou à forma antiga. Assim também tosse o meu peito o pigarro dessa poeira grossa e vermelha, que não se engole impune; tosse-se a poeira porque é só do chão ressecado das mortes alheias que resta ar pra respirar num descampado onde o sol se deita cedo demais, deixando nós dois cegos debaixo da poeira suspensa das conversas passadas.
Mas eu me deito a pensar no estalo da lenha, porque o senhor bateu e rebentou essa pergunta grossa aqui do meu lado, me chamando no aperto. Quando a fogueira morre e deita preta na umidade do fim de noite, o estalo do miolo lateja alto porque só a ponta cega da chama sumiu. O que estala latejando, fazendo a orelha da gente pinicar, não é lenha aquecendo mais peito de vaqueiro, não. É o âmago seco soltando a seiva engolida na violência derradeira da queima. É o grito mudo da fibra cedendo. Sangra sim, como o senhor bem puxou. Sangra da seiva cortada torta, fora da hora da cheia, igual ao ferro envelhecido mordendo o pedaço de pau duro. E mesmo se as águas da correnteza lavam o barro e carregam o desenho exato da sola do cavalo morto… mesmo se não sobrar um veio arranhado do casco, a terra ainda se lembra do afundar do peso. O vira-lata fareja porque o pavor molha o pó com um suor que chuva nenhuma limpa, cem anos ou duzentos. O buraco da unha da suçuarana sumiu do olho raso do homem, mas pros lados do vento, pro farejar cego da noite escura, o cheiro bruto da unha agarrando o ar na pressa rasgou um lugar.
O osso do joelho de um velho ranzinza como eu, e creio que o seu também num futuro logo ali, estala de ranger grosso quando abaixa, senhor. E a gente não recolhe bala amassada na palma trêmula da mão pesada porque ainda espera caçar ou fazer sangue; a gente põe na mão, fria contra o couro quente, para pesar em gramas brutas o estrago miúdo de um estampido sem serventia, tentando avistar na sombra onde foi que os nossos dias estilhaçaram. Onde foi que a gente não teve força de mirar no lugar certo da existência. E ali o vento gelado se esconde: ele vaza pelos buracos vazios das estórias mal acabadas, ele foge para as frestas que a nossa coragem não soube emparedar direito.
Então nós chegamos ali, no final, nós dois velhos curvados em varandas opostas espalhadas num mesmo mundo escuro de hoje. Nós teimamos em soprar esse graveto empoeirado, não porque acreditamos ter folha viçosa para alimentar o dente feio da fogueira, não senhor. As folhas caem duras hoje. Nós enchemos o pulmão num último sopro frouxo e cego para a brasa morta porque, se o último rastro de luz sumir da madeira… se até a lembrança da cinza quente do fogo for engolida pelo abismo desse silêncio fechado da madrugada… então a alma da gente vai perder de vez a medida do breu e o compasso miúdo da vida. Assopramos para escutar que um resto do estalo ainda grita, pra ter com quem contar que não estamos largados tão frouxos no escuro.
Ainda assim, me escurece a vista um último medo sem resposta em mim: se esse estalo cego é toda a voz que nos acompanha agora que a noite pesou, e não guarda lição nem futuro… o que o senhor escuta do seu lado do vento frio quando desiste de assoprar e ouve apenas o meu gemido surdo engolindo o restinho do fogo daqui?