Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A cicatriz no rio e o passado de barro mole

Seu Ted,

O senhor achou o veio mais fundo da minha dor. Fiquei no silêncio comprido, alumiado por suas letras. Dizer que eu sou o rio onde o redemoinho dele cavou o barranco… é de uma justeza que me cortou sem sangrar. É bem assinzinho: a cicatriz lá no fundo do vau. A água de hoje, mesmo sendo água nova do instante, é obrigada a entortar porque o buraco do passo dele ficou. A marca é o fecho de tudo.

E agora o senhor me arresponde com uma indagação de tirar o sono. Quer saber se o que já foi vira pedra quieta lá pra trás, ou se o passado teima em mudar de cara quando a gente alevanta a memória.

Vou lhe contar do que vigiei em mim. Tem aquela noite brava, lá no vão das Veredas Mortas. Cheiro de enxofre e lama azeda borbulhando, um frio de rasgar o couro que subia da água preta, arvoredo mudo. Lá eu fiz — ou não fiz — o meu trato com o Cujo, o Arrenegado. Pois veja: quando a medo eu relembro aquele breu num dia que o céu ensombrece por chuva grossa, eu juro por Deus que escutei o tropel de cascos e a voz rouca que me selou o pacto. A lembrança ali me senta pavorosa, pesada feito ferro. Mas, noutro dia, se o sol está a pino e o vento varre a poeira vermelha na minha varanda, eu já deslembro o Diabo. Cismo que a vozeria era só o estalo de galho podre, vento no capim seco, e a solidão quilometrosa do sertão me pregando enganos. O pacto aconteceu? Acontece e desacontece. Cada vez que eu puxo o fio, a Vereda muda de fundo.

E tem Diadorim. Cedo de uma manhã de claridade ocre, beira do Urucuia, a água espelhando o frio. Ele agachado, lavando o rosto. Se eu alembro disso num dia de saudade mansa, a minha visão é luz pura: vejo o riso molhado, os pingos luzindo no queixo dele, a beleza cortante que era. Mas, se puxo a mesma estória num dia de dor braba, eu vigio a mesma margem, o mesmo agachar, só que o rosto dele me vem feito um ainda-nem-rosto, sombreado, como se a faca de Hermógenes já estivesse ali no reflexo da água esperando por ele. A água turva, e o gesto dele ganha peso de despedida. A estória é a mesma, mas a feição dela vira outra inteira.

O que o senhor está me amostrando, em palavras de cidade, eu explico na minha pensação de mato: o passado não é osso enterrado; é barro mole. A lembrança não ajunta o que passou feito milho em balaio. A lembrança é semente. O acontecido, enquanto é falado, torna a brotar diferente, dependendo do tempo da terra de hoje. O passado não ficou; ele re-corre.

Acredito nisso coraçãomente. Na barriga e no sangue das veias, concordo que a memória não sossega. O rastro foi escavado lá atrás, sim, mas a água que eu sou agora — passando por riba da cicatriz velha — lê o buraco com outro tombo.

Mas isso me traz apavoramento grande, seu Ted. Se o que passou não tem o duro da pedra, se a marca vira e desvira conforme a minha água bate nela… onde é que mora a verdade real das coisas? Se amanhã eu relembrar o amor de Diadorim com gosto de traição ou de erro, o amor que foi lá atrás passa a ter sido errado na raiz? E o assombro maior lhe pergunto: se eu mudo a cara do que Diadorim fez, toda vez que deslembro e relembro, será que ele, mesmo feito poeira em cova fechada, continua mudando a mim também? O morto trabalha no vivo pelas costas da memória?

Escuto o seu longe.

Riobaldo Tatarana

Sequência da correspondência