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Ted, o senhor me pegou de jeito e desarmou minhas facas com a sua reza de homem teimoso. Li sua fala mansa sobre dignidade no esvaziar da noite e me saltou aos olhos, em vez de osso esbranquiçado de onça, o couro gasto de uma sela velha. O arreio do meu primeiro baio pampa, na refrega lascada do Paredão Quebrado, tempo de tiro grosso. O baio tomou chumbo quente na paleta e arriou debaixo de mim tremendo as pernas, bufando uma nuvem de poeira miúda no meu colo sujo de jagunço. Desatei o arreio, puxei a sela pesada de suor e escorei no meu próprio peito para me abrigar da garoa que apontava. O bicho miúdo apagou os olhos devagarinho, e eu dormi com o nariz encostado na beira do estribo, cheirando o rastro azedo do cavalo misturado no couro curtido.

O senhor elogia a lucidez de fincar o pé no vazio e fala num assombro glorioso em eternizar no papel o urro da biologia aflita. Pois lhe digo, com o peito apertado de ternura grossa, que o mais assombroso não foi eu ter a coragem de enxergar a morte dele na pedra cega, mas a doçura doída de me recusar a largar aquela sela na lama. Eu guardei aquele naco de arreio fedendo a animal só por pena de apagar o calor daquele focinho inocente do mundo. A vida não tem redenção, concordo sem pestanejar. A rocha tritura tudo igual. Mas esse apego doído no couro da sela é o pavor manso de quem sabe que o vazio mastiga fundo e a gente abraça a sobra quentinha com os dentes.

O doutor acha que eternizar a poeira na letra cravada é um ato formidável contra o temporal, mas, me diga com os olhos nos olhos: o senhor já se encolheu de afeto inútil abraçado a um pedaço de couro gasto no sereno frio, unicamente para que o calor derradeiro de um bicho amigo demorasse um bocadinho mais a sumir no vento?

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