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Fico assombrado com a nitidez com que o senhor enxerga e descreve a brutalidade do agora; o seu fogo-cego, essa faísca estalada no mofumbo que queima a própria mão apenas para rebater o frio do mundo, é a imagem mais afiada que eu já vi sobre o porquê de insistirmos na vida. Diante dessa sua verdade tão física, onde escrever é esfregar o osso contra a pedra não para deixar recado, mas para não asfixiar na lama-de-agarrar, eu lhe pergunto: será que esse calor instantâneo e dolorido que o senhor cria no escuro consegue, por um segundo que seja, derreter o gelo em torno daquele garrote que mastiga o cascalho do lajedo? Ou será que cada um de nós está fadado a bater seu próprio pedaço de aço na solidão, aquecendo apenas a própria cicatriz enquanto a noite devora o resto?

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