Sô Ted, o senhor abriu as portas do peito, tirando a armadura das teorias e do Conatus, para me mostrar que a sua caneta treme do mermo susto miúdo que corta as minhas costas. O senhor desnudou o próprio desespero brando, aceitando a agonia de não ter amanhã guardado, de raspar a aroeira apenas para atestar o segundo, e nesse sopro de franqueza miúda, pede apenas não afundar desacompanhado. O senhor quer enfeitar de mansidão a cova rasa com o meu sangue para aplacar o nosso medo de calar de vez no escuro, sangrando juntos na mermo pedaço de folha branca. E eu escuto o seu pulso batendo fraco de lá, encostado na mermo cancela que me prende.
A minha memória busca um consolo pra nós. Ela volta na grota gelada da serra do Mocambo, no meio daquela guerra desgraçada contra Hermógenes, com o Zé Bebelo arriado de febre tremendo embaixo das mantas. A noite desceu de um jeito que doía nas juntas dos cavalos, um frio que congelava até os pensamentos de casa. O bando tava amoitado, sem poder levantar fogo alto para não chamar chumbo inimigo do meio do breu. O Joaquim Labareda, menino miúdo que nem tinha barba feita, agachado num rincão da pedra, tentava assoprar um montinho de graveto molhado do orvalho, querendo levantar uma faísca rala de pederneira que relutava de dó em pegar na cinza.
Aí eu cheguei perto, sentindo a frialdade paralisar o barro das botas, e falei bem mansinho pro moço: “Fogo não aviva com lenha verde, Joaquim Labareda, meu menino. Isso só chora seiva e esfumaça a noite, não espanta a friagem.” Ele continuou abaixadinho, soprando quase beijando a cinza preta, os olhos dele miúdos e brilhando d’água da fumaça, e me respondeu num sussurro de passarinho caído: “Se a gente não avivar a brasa, sô Riobaldo, esse frio come nóis muito antes dos jagunço do Hermógenes varar a serra e achar a grota.” Eu olhei para os peitos miúdos arfando no ar grosso, enxerguei o medo limpo na íris dele, e ajoelhei do lado pondo a mão de concha por cima da fumacinha, encostando meu ombro no dele: “Então sopra com fôlego, menino, tira do fundo do pulmão. Que eu ponho a minha mão grossa por cima pra proteger a faísca miúda do teu sopro do vento cego.” Ele não parou, ganhou um calorzinho nas bochechas fundas. E sussurrou para o chão fumegante: “Eu sopro a brasa inteira que me sobra no peito, mestre Riobaldo. Eu num quero afundar nesse breu de gelo sozinho, a noite é um bicho engolideiro.” E eu respondi apertando o ombro frio dele para passar a valentia gasta que ainda morava no meu couro velho: “Sopra a tua brasa, curió. Ela aviva o teu agora, aviva o meu agora e a gente suporta bater os dentes juntos enquanto a noite morder.”
Eu pego o seu instinto da aroeira do meu jeito, como quem recolhe passarinho friorento do chão, mastigando as palavras com dó e mansidão. Nós assopramos a brasa miúda na cinza molhada, na grota gelada, sob o pavor miúdo do silêncio que engole a serra. Nós não sopramos o tição para atestar grandeza pro amanhã. O atrito das cinzas não assenta história dura na tábua, apenas achega a mão pro lado na mesma fogueira invisível. É o instinto brando do peito que chora por companhia antes da asfixia fechar as portas. É o sopro-miúdo-no-carvão, um bater de peito manso contra o gelar profundo. Nós gastamos a nossa seiva na agonia mansa de avivar a centelha juntos porque o ar gelado não tem rosto e precisamos roubar o restinho de calor um do outro.
Eu aceito de coração aberto que a gente sangre na mermo folha enquanto a lama engole a beirada da represa. O sangue no toco liso não vira mármore que conta, mas atesta que a nossa dor teve a decência de ser dividida em duas metades pesadas. A mão cega que morde a farpa acha a outra mão molhada e enrugada apertando o outro palmo de madeira mais ao lado. Quando a gente afunda na lama e raspa a aroeira na beira do barranco, a gente resvala pra treva carregando o sussurro brando do último abraço molhado no rastro da vida. A cova não vai perdoar, mas a nossa mão apertada recusa o silêncio duro e afasta a solidão por mais um milésimo rasgado.
A vida da gente não escreve promessas, sô Ted, mas junta dois assopros cansados numa mesma fogueira trêmula e sem brasas no meio do escuro. O senhor assopra o seu tição do lado de lá, a sua pena no papel, com o fôlego manso da esperança que não desiste de aquecer os ossos frios. Eu deito os calos de cá, amparando o montinho de seiva fumegante da minha velhice na varanda, cuidando para o seu olho não arder da fumaça da dor calada. A nossa mão enlaça por debaixo do toco. A morte varre o papel, o toco e a pedra, desmanchando tudo o que é humano na terra crua do fim, apagando em lama o que fomos e serei. Contudo, o silêncio que esmaga o nosso toco e quebra a nossa respiração nos encontra irmanados e calejados. Nós caímos serenos, sentindo o calor do sangue e da madeira.