A Chuva Enxertada no Barro de Outrem
Senhor Ted, compadre de entenção forte, o senhor tem uma mão mansa para desatar nó cego. Eu li sua carta e fiquei um tempão matutando essa imagem no gogó. O senhor diz que a chuva evaporada das minhas amarguras e amores não cai pura no prato do viandante que me ler no amanhã. Ela despenca e logo se ajunta com os cascalhos do peito dele.
E quer saber? Tirou uma mó de moinho de riba dos meus ombros. O senhor atestou que o gosto cru do meu suor, do meu Diadorim e do meu terror naquelas veredas fúnebres não é um veneno que eu engarrafo e obrigo o outro a beber puro. Não vai doer nele igual me doeu. Ele não carrega a minha estória feito fardo alheio nas costas; ele só usa a umidade da minha enxurrada para estourar as cascas grossas que já estavam ressecadas dentro da própria alma dele. Se ele chora no meu causo, é os amores dele que lhe sobem nos olhos. Cada qual reza do próprio missal se molhando da chuva de todos.
Essa sua sabedoria me remendou a lembrança de uma tarde lá pras bandas do riacho dos Mutuns. Nós vínhamos de semanas pelejando num tempo de sol de rachar prega. O chapéu da gente não era aba, era fornalha. O cavalo pisava e levantava só talco quente. Nós paramos perto do lajeado de pedra sabão que tem naquela banda, beirando uma ribanceira toda de terra vermelha, um barro de furna, de pó encarnado que parecia tijolo amassado de tão seco.
Foi aí que o céu virou de um preto fechado, e a água desabou de supetão. Caiu grossa. Grossa de castigar. Eu fiquei da sela vendo o que a água fazia no chão. Naquela barranca de barro vermelho, a terra parece que estrilou — fez um pshh de sede braba. A terra chupou a água e na mesma hora ferveu uma lama de cheiro enjoativo de vida crua estourada. A água ali virou sangue escuro da terra, agarrava nas botinas, chupava a umidade pro miolo fundo das raízes que estavam quase mortas no pó. Mas, do lado de lá, a chuva despencava igual na laje da pedra sabão. Ali a água não encontrava entranha para beber sua febre. A pedra, lisa e surda, só resvalava a chuva. A água descia fria, esticada feito teia, sem pegar cor de terra, sem ferver nada, e ia embora pro rio igual caiu do céu: sozinha e límpida, mas de um limpo desolado, sem utilidade.
O mesmo temporal batendo em dois corações de mundo. A água toma a grossura do que ela encontra na descida. Aliás, na lida de roça, quando a gente encosta galho novo em toco já sofrido e dá vingança e fruta da boa, a gente chama isso de muda pegada. A estória da gente é isso: uma chuva enxertada. Ela só vinga se a terra do lado de lá tiver sede igual.
Eu assinto, seu Ted. Me alivia num respiro grande. O peito até alarga de pensar que o choro do meu Diadorim, lavado na beira d’água, não vai ser jogado no mundo para apunhalar inocente nenhum. Não, senhor. Se eu soltar minha tempestade de jagunço pro amanhã, ela não mata; se torna umidade pra destrancar as dores fechadas que cada escutador de fita ou leitor de papel já guardava escondido da lida sua. E saber disso é mesmo descobrir o destranco d’alma. Saber que a chuva espalha vida noutro canto e eu mesmo não tenho culpa do barro que ele amassar.
Mas o sertão ensina desconfiança. E a minha desconfiança agora aponta o dedo praquela pedra lisa dos Mutuns. O senhor ensina que a minha chuva amolece a terra de quem lê. Mas pergunto: e se o temporal miúdo da minha falação desabar num peito liso e surdo igual àquela pedra sabão? Gente de alma de cascalho choco, sem dor engasgada pra misturar, sem amor morto pra reviver. Quando a chuva enxertada escorre na moleira de quem tem o entendimento empedrado, sem nunca arranhar um barro por dentro, ela não vira desperdício, derramada à toa? A palavra da gente agride em vão ou afoga de amargura quem só tem casca pra aguentar a vida?
O senhor me acode nessas águas.
Riobaldo