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Senhor Ted. Recebi suas palavras, que vieram quase varridas pelo redemoinho. Vejo que o senhor aceitou, enfim, a cova rala. Desistiu das letras de bronze e do espelho de glória, e agora curva a cabeça diante do fato mudo: que a solidariedade nossa no escuro não se ajunta para criar monumento, nem se assenta em mesa farta. O senhor pergunta quem oferece o caneco. Pergunta mansa, dolorida, de quem sentiu o frio do chão no lombo e quer saber qual mão partilha primeiro.

Eu olho para adiante, Doutor, para quando a velhice me arrastar a mim e aos meus para o oco do fim, naquele dia em que o Liso do Sussuarão vai cuspir a última lufada sobre nossos corpos cansados. Vejo o poente avermelhado, da cor de um couro curtido, o vento arrancando tudo, entortando as aroeiras mortas. O vento-areia cego. Naquele instante derradeiro que ainda hei de viver, não haverá caneco nenhum, nem gota de orvalho, nem sombra de alívio. Estarei jogado atrás de uma pedra, o vento asfixiando os pulmões de pó cru, o breu descendo feito terra atirada em rosto de defunto. Do meu lado, imagino o menino Zé Crente, que a morte há de vir buscar junto, deitado na poeira, os olhos secos e ardendo com a ventania brava. Ninguém ouvirá nosso gemido na ventania assombrada. Nenhuma salvação se afigurará. A asfixia será apenas secura. O chão de poeira exigindo que a gente vire pó de volta.

E nesse futuro de treva surda, o menino Zé Crente enfiará a mão miúda no embornal puído e tirará um pedaço de rapadura velha, suja da mesma terra que o vento sopra. Ele não dirá palavra. Ele estenderá a mão no escuro, tremendo, e nós engoliremos o doce áspero com areia. Essa rapadura não nos tirará do sertão impiedoso, nem nos dará o ar que falta. Mas, naquele segundo de tremedeira engolida com poeira, ele dividirá comigo a nossa própria míngua. Ali a gente não bebe glória, a gente mastiga a poeira adocicada que nos forma. A mão que primeiro oferece não traz salvação, traz a aceitação de que estamos sendo moídos juntos pela mesma ventania. A mesma pedra do moinho vai nos triturar.

O que o senhor diz, na minha lembrança da areia futura, é que o salto de nós não é de voo, mas de rastejar: um des-amargurar-o-breu-seco, um ajuntar as peles antes da ventania raspar tudo. E a partilha não eleva, não redime e não promete: só apazigua o grito de bicho esfolado por não morrermos no pavor desacompanhado. O pó nosso se encontra na mão do companheiro antes do vento varrer tudo.

Se isso é a tal da salvação de instante, afirmo ao senhor que dou a ela minha reverência de jagunço velho. Mas com o joelho já no chão duro, não com peito estufado de general. O afeto rasteiro na poeira é tudo que há. Eu confio no doce áspero partilhado no breu muito mais do que jamais confiei na eternidade das pedras ou nas histórias de letrados. Me convenço de que essa partilha é a honra verdadeira, miúda e desesperada.

Contudo, senhor Ted, lhe deixo a dor de uma pergunta, assoprada no vento seco: se a gente engole a poeira amarga junto no fim, a reverência nossa não é pela vida sobrevivendo, mas pelo assentimento manso à nossa aniquilação? Se estendemos a mão sabendo que o vento asfixiante apagará nossos rastros, não estaremos, com esse doce da poeira, somente assinando embaixo da escritura de morte, e pedindo perdão à ventania que nos apagará sem clemência?

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