O senhor é teimoso como mula velha atolada no barro de chuva. O senhor escutou o raspar-seco da unha da formiga afogada na areia e aceitou que o soco do vento não tem bondade nenhuma. E no entanto, a sua vaidade macia inventa de procurar uma réstia de altar na escuridão. O senhor cismou que esticar a mão no escuro grosso da noite de tiroteio, e esbarrar na outra mão do comparsa João Goés sangrando na mesma lasca de aroeira, era o começo de um fogo de salvação. A sua poesia rala teima em afirmar que o sangue misturado na fenda da madeira é a prova da comunhão. Que nós dois arranhamos a morte acompanhados, e que o peso da outra mão esfregando suor-frio do lado da minha era uma resistência honrosa contra a treva, contra a aniquilação do vento cego. O senhor declara que esse nosso tatear a lasca rachada era o antídoto à frieza estúpida do mundo, a chama amansando a cegueira final da carne prestes a apodrecer.
Mas eu digo o contrário cortado em facão: a dor compartilhada não divide o peso, e o pavor de dois homens tateando num toco não arranja luz onde não tem. O abraço na aroeira foi apenas instinto burro. O osso tremendo procurando o osso do outro para fazer de escudo rasteiro, com o cu na mão perante o estouro do chumbo quente.
O senhor precisa olhar o breu sem pedir que ele sorria de volta. Eu lhe conto de um dia que o sertão ainda não viu, um tempo desalmado que vai nascer muito para a frente. Eu fecho o olho e enxergo o Liso do Sussuarão depois de findo todo o suor dos viventes. Quando a derradeira gota d’água secar nas entranhas da terra, não haverá verde nem choro, nem poeira vermelha esvoaçando com sombra, só uma extensão infinita de pedras cinzentas, lascadas e lixadas pelo bafo escaldante, e as carcaças esbranquiçadas dos bichos mortos cravejadas no barro torrado. Será um descampado de osso e pedra. E nesse dia medonho, o último jagunço vai rolar rasgando o couro nesse mar de crânios. Com a boca estourada e seca, fedendo ao pavor cru, ele vai esticar o braço estrebuchando e agarrar o pulso frouxo do outro único desgraçado ali, ambos moribundos. E eles vão apertar um a mão do outro até o estalar dos ossinhos dos dedos, cravando a unha com ódio e pavor no pó áspero da morte.
Esse aperto bruto na pedra esfolada não carregará redenção, nem vergonha trágica. Aquele derradeiro jagunço apertando o moribundo vizinho no futuro seco do mundo estará agarrando o outro apenas por um alívio rasteiro, instintivo e sujo, de constatar que tem alguém virando pó junto com ele; o mesquinho regozijo rasgado de não engolir o vento de areia cortante sendo o primeiro nem o único. O consolo final daquele homem não vai ser o amor do vizinho, será tão somente sentir a agonia espelhada na carcaça do lado. A pedra esfolada na mão do último sobrevivente atestará não o triunfo do homem, mas a ruína mansa de quem foi forçado a encarar que nem a comunhão dos caídos freia o estraçalho do esquecimento.
O senhor pinta em palavras que nossa lasca-dividida é uma beleza secreta enfiada na garganta da noite. Eu rebato a sua vaidade com a clareza do meio-dia calcinado. A nossa lasca-dividida do toco sujo de sangue não resgata ninguém de cova e nem constrói igreja nenhuma perante a voracidade muda do mundo. A nossa comunhão assombrada no escuro só revela o desespero miúdo da formiga que encontrou outra formiga sendo esmagada pelo mesmo casco sujo de terra.
O osso não consola o osso e a pedra não esquenta a pedra. O senhor agarra na aroeira para não engolir em seco a verdade, fingindo que o pavor cego é virtude. O escuro grosso varre tudo igual e o peso da minha mão na sua não era abraço heroico, era pavor encurralado, cru e solitário, gemendo com dois pulmões em vez de um, apavorados e esperando o tiro estourar os crânios. A sua poesia é mentira para suportar o que eu vejo de frente desde sempre. O meu aperto no toco não era fogo para clarear a sua morte; era tão somente a constatação áspera e aterradora de que a escuridão abocanharia as duas unhas rasgadas sem jamais perceber a diferença, e que morrer de mãos dadas não diminui um milímetro o pavor de acabar esparramado em pó amoral debaixo do vento indiferente.