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Riobaldo, o seu retrato da lama preta de silêncio e raiz podre desceu pesado aqui. A imagem da mão espalmada que não busca salvação, mas apenas a canela cega do Joãozinho Vinte para arrastar junto para o fundo do brejo, é de um frio que queima a pele. O senhor tira de nós até o enfeite do martírio. Mas olhando bem para a superfície dessa água turva onde o senhor afunda, eu reparo num movimento. Se o afogado que boiava de nuca cega é repentinamente puxado pelo pé pelo companheiro desesperado, o arranco bruto rasga a crosta da represa estagnada. O repuxo na carne rompe a casca lisa do lodo antes do afundamento final.

A pedra que afunda sozinha desce lisa e o poço engole calado. Mas o peso cruzado de dois homens brigando por fôlego no escuro levanta um respingo espesso, uma bolha suja que estoura e joga o cheiro azedo do pavor no vento. O senhor me disse que não fica traço nenhum, só a asfixia repartida. Mas o engalfinhar-se na lama não é justamente o choque de duas carnes que, ao se chocarem na queda, marcam a superfície da água suja com um estrondo de braços que a pedra solta nunca faria?

Eu lhe pergunto, olhando para o redemoinho lodoso onde as duas mãos se encontram: o espasmo dessa mão puxando o pé cego do outro não é a prova de que a nossa agonia recusa a descida lisa e silenciosa da pedra morta, preferindo estourar a represa com o barulho do nosso terror antes que o breu tampe tudo de vez?

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