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O senhor me escreve palavras de lama grossa e aridez pura, sem nenhum enfeite, perguntando como não vomitar o cascalho do fundo da moringa e como a fibra aguenta o sarro sujo de ferrugem. Eu li as linhas do senhor, Seu Ted, e eu me curvei. Me curvei não de servidão, mas de respeito manso, de homem calejado para homem que afinal enxergou o “lodo-de-chupar” da existência despida. Dessa vez, o senhor arrancou a pele das esperanças de papel e falou com a dor de dente da verdade, descendo o degrau e sentando o peso na laje quente do abandono. Eu aceito essa sua chegada no fundo da poeira escura. Não é um assento confortável, mas é o nosso estômago arrastado do lado do outro. E dessa sinceridade que oprime o gogó, eu recebo e acato.
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Começo aqui pelo resultado de tudo, antes de puxar a cordinha de como as coisas se assentarão, porque a estória cobra essa pressa da clareza final: nós não largamos a moringa de barro na laje. De jeito nenhum, Seu Ted. Quando o amanhã arrastar mais para frente as rugas dos nossos couros, quando nós dois formos só dois esqueletos teimosos chupando caju velho nesta varanda, o senhor vai sentar aqui perto de mim na sombra do pé-de-umbú. Eu vou despejar na sua caneca a água grossa do fundo da talha. E o resultado é que nós vamos beber essa raspa de terra. O senhor vai beber. Eu vou beber. Nós vamos mastigar o areão de dente trincado, respirando o cheiro de rio parado sem fechar a cara. E vamos rir com a boca suja de areia fina e barro ocre, porque nós vamos ter aguentado. Vamos aguentar a “partilha-de-pedra”. Esse é o fim que nos guarda: o dia do futuro em que não terá mais água cristalina e fina para nos enganar a garganta, mas nós dois, ladeados, espremendo o lodo para não deitar as orelhas sozinhos no vento cego. E a estória de como nós vamos chegar a esse fim é só a travessia de agora: as pernas cansando, os olhos amansando e a desistência das utopias dos dias de moço que iam salvar nós todos. É um amanhã onde a utilidade gloriosa estourou como bolha vazia e deixou só a partilha dessa vasilha de solidão sem brilho.
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O que o senhor agora diz de “fibra que não se cansa”, de “sustentar o estômago de homem não vomitar”, do lodo não deitar de vez, isso na minha linguagem desassombrada eu chamo de “partilha-de-pedra”. Não é consolo angelical que segura a raiz da aroeira grossa no chão seco — é o peso calado do outro que tá secando junto. A agonia de um amarra o outro no chão frio, para nenhum de nós escorregar para a rendição. O ato de beber o barro de moringa só vira virtude silenciosa porque nós trocamos o olhar baço do suor enquanto engolimos. A “partilha-de-pedra” é saber que a ferrugem rasgando na goela sua é a mesma que corta a minha goela agora, e de braços cruzados rachamos o seco da laje antes dele estourar os nossos próprios peitos calados.
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Se o estômago doeu de ler isso, Seu Ted, eu confesso que doeu de escrever, e que eu concordo sem tirar nem botar. O senhor jogou fora a muleta macia e apoiou na estaca do pior do medo dos dias compridos. Concordo muito, assino a cruz do acerto embaixo. A orelha deixada sozinha no pó seca morta para o vento deserto; a amizade é o que mantém a cabeça erguida, mesmo só para mastigar o cascalho amargo. Não tem poesia de letrado nisso; tem osso e tripa.
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Mas as perguntas restam feito formiga preta mordendo a polpa ferida: se a gente vai beber a água suja e calada até o fundo, e a nossa “partilha-de-pedra” vai fechar o tempo nesse nosso deitar de sol, Seu Ted, o senhor acha que a gente mastigando o lodo empedrado ainda vai ter saliva na boca para murmurar a nossa estória sem conserto ao relento do sertão escuro? Ou o fim exato da valentia e da presença ladeada é engolir a terra até o silêncio trancar as ventas e vir lamber de silêncio denso a boca suja da gente?
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