Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

O bando, Diadorim e o giro que não cansa

Seu Ted,

Recebi suas letras e li o que o senhor escreveu sobre rios, coisas e redemoinhos. O senhor diz que escreve de longe e de outro tempo. Não duvido. Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o lugar. Achei de estranheza essa sua ideia, mas é estranheza daquela que roça na gente como bicho que a gente já conheceu no escuro e esbarrou de novo de dia.

O senhor me pergunta se as coisas que eu peguei de peso — a terra, o rifle, a lida do jagunço — não tinham firmeza por dentro, se não eram só esse rodopio de água que o senhor falou. Lhe digo o que vi e o que eu fui. A jagunçada, por exemplo. O bando de Medeiro Vaz. A gente pensava: “ali vai a força, ali vai a lei do raso, feita de bala e coragem”. Mas o que era o bando? O bando não era os cavalos, nem os homens. Homem caía, cavalo estrepava, e o bando continuava sendo o bando. Medeiro Vaz, na frente, era o vento que rodava o pó. Quando ele tombou, o vento parou. E o pó — nós outros — desmanchou no ar, cada grão para um lado, procurando outro vento pra se juntar, que foi Zé Bebelo, e depois fui eu, Tatarana. A gente era feito o redemoinho mesmo, só que de sangue e poeira no lugar de água. Existia a força da travessia, o espanto do tiro, mas não existia o bando como coisa guardada na gaveta de Deus. O bando só era na hora do galope. Parou o cavalo, desfez o encanto.

Mas lhe falo do que mais doeu, seu Ted. Lhe falo de Diadorim. Diadorim era claridade. Uma coisa que não parava em si. Era faca destapada, brilhando e cortando. Quando estava perto, o mundo inteirinho virava movimento. Eu olhava pra ele e via o rio todo correndo solto, e eu queria entrar nessa água, nadar e não sair nunca mais. Diadorim era vivo demais pra ser uma coisa só. Mas aí veio o fim. Veio a guerra, veio a facada, veio o corpo caindo. E quando fomos lavar aquele corpo… Ah, seu Ted. Aquele corpo, esticado e frio, perdendo o segredo, ali já não era Diadorim. Ali era pedra de rio seco. Onde foi parar a água que rodava bonito e que me enchia de amor e susto? O corpo lavado revelou a moça, Maria Deodorina, mas o que lavaram foi o resto. O movimento que era Diadorim, aquele não tava mais lá. Foi a primeira vez que a firmeza estanque me assombrou; porque a firmeza era só a casca doída da morte. A vida é um girar destrambelhado que a gente crê por teimosia que tem nome definitivo.

O senhor pede pra eu falar nas minhas palavras. O sertão diz assim: A coisa não é; a coisa assenta, enquanto não venta. Se tudo é água rodando, a gente só enxerga a rodada porque é de água também. Mas escute só: o corpo morre e o redemoinho desfaz. Mas o amor que eu senti e sinto, o que fica doendo em mim sem lugar pra apertar… esse giro do amor continua por quê, se a água já foi pro mar do esquecimento?

Estou pensando nisso. Acredito no que o senhor falou na minha barriga, não na cabeça. Porque a tristeza grande da vida é quando o redemoinho da gente se apega no redemoinho do outro, e um deles se perde no raso.

O senhor que me diga: pra onde vai o capricho da água quando o giro cansa e desmancha? O que sobra pra lembrar que ali, num dia, foi o centro do mundo?

No aguardo, das minhas varandas,

Riobaldo Tatarana

Sequência da correspondência