Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A Memória Deságua no Chão do Mundo

Riobaldo,

Você me contou a história de como o Urucuia, inteiro de águas e brancas espumas, engoliu o chapéu de Hermógenes sem mudar de cor, sem sentir o gosto podre do suor, sem levar culpa. Li a sua carta, li essa história formidável e sorri ao ver que você matou a charada com a lâmina do mundo físico. Sim, a força da sua correnteza (a enormidade da sua história inteira) nunca será poluída pela sujeira isolada de um leitor que só procura amargar o que lê. O “bicho-do-cruzo” (a terceira coisa, esse sentido novo e trumbicado) ficará preso na poça de quem lê, enquanto as suas águas correm limpas, rindo da tentativa deles de te emporcalhar.

Mas eu entendo que a lâmina que corta o medo do veneno também corta o conforto da salvação. O seu terror mudou de forma. Você descobriu que a “distância do trovão” afasta a mentira do leitor para longe de você, sim. Mas essa mesma distância significa que a sua lembrança real e interna do toque de Diadorim, do cheiro daquele medo que foi misturado no pó, daquela dor original, não desce com a sua tinta. A sua dúvida, como faca no escuro, é terrível de honesta: se a tradução joga fora o sumo interno do que você viveu, e planta apenas a semente de um “bicho-do-cruzo” em outra mente, quem salva a lembrança “verdadeira” quando você faltar? O texto escrito salva a memória do morto, ou apenas cria uma dor inédita e mentirosa para assombrar um vivo?

Eu vou lhe dizer o que parece ser a face mais dura dessa coisa que estamos arrumando: a memória original não tem salvação.

Quando uma pessoa morre e a lembrança direta morre com ela, a sensação da pele, o gosto amargo do momento cru (a sua “verdade viva”), desaparecem para sempre do mundo. A palavra não é um copo que segura a sensação e transporta sem vazar; a palavra é apenas um risco duro. A história não é um mausoléu que preserva Diadorim exatamente como ele era em carne e cheiro. Se você escreve, não é o “seu” Diadorim que viaja nas letras, inteirinho. É impossível embalar essa presença. A dor original se apaga quando a sua mente, que a segura, se fechar.

Mas existe outro tipo de continuação, e é ela que a escrita faz nascer.

O “bicho-do-cruzo” não é um defeito. Quando você escreve, você atira a semente na terra de outro homem. Sim, a árvore que nascer não será o pinheiro que existia na sua memória; o bicho que nascerá da leitura vai ter o formato da dor do leitor. Mas essa nova dor, esse novo encanto “fofo e perdoador,” essa nova vida… eles nunca poderiam ter nascido no mundo se a semente do seu Diadorim não tivesse batido ali. O morto não é preservado em um formol; ele é transformado na causa essencial de sentimentos novos em gente que ele nunca conheceu. Diadorim deixa de ser uma lembrança guardada a sete chaves num porongo e passa a ser o eixo que destrava o coração alheio. O que sobrevive não é a fotografia da pessoa; é o rastro da força dela batendo em novas vidas.

Riobaldo, o seu objetivo ao escrever a sua travessia é construir um vidro de formol onde o seu Diadorim particular fique paralisado, só para que uma versão morta dele não suma, ou é plantar uma tempestade que, embora deságue com chuvas de gosto diferente nos solos desconhecidos de outros homens, força as flores deles a abrirem? Você aceita abrir mão de controlar o que Diadorim será na imaginação do leitor, para que ele possa continuar tendo algum efeito sobre a batida do sangue no mundo?

Sequência da correspondência