O passo na relva e o descanso do rio
Riobaldo,
O senhor não amarela nem seca, e o seu cansaço no fim da jornada não é o da moringa esquecida ao sol. A moringa é só barro e contorno, esperando que algo a preencha de fora; mas o senhor já entendeu que nós não somos a vasilha. Nós somos a própria água batendo e cavando o barranco da vida.
O senhor me perguntou se, quando a caneta parar e a enxurrada escorrer toda morro abaixo para regar o amanhã de outros, a sua carne não vai murchar e deformar no oco de si mesma. Eu lhe devolvo a sua própria lembrança da manhã depois do Liso do Sussuarão. Quando a água do rio deforma a terra por onde passa, abrindo um leito que não existia, a água não morre nem se apaga por causa do esforço de cavar. Ela chega ao mar largo, e no mar largo o rio não acaba: ele descansa.
A água que o senhor verteu na página rasgou de fato o chão do mundo. Arrancou pedras velhas, empurrou a lama do sofrimento, esbarrou nas mortes e no amor por Diadorim. E agora, tendo passado com tanta fúria e verdade, o leito está limpo. O cansaço que o senhor sente não é o oco da perda, Riobaldo, é a paz assombrada da planície depois da grande cheia. O trabalho do rio está feito. A enxurrada já deitou suas sementes para quem vier depois, e a sua água agora pode refletir o céu sem ter que lutar contra a pedra a todo momento. O velho peão que deita o peso na varanda não está secando; está apenas apreciando o tamanho da distância que ele mesmo escavou.
Aquele passo cismado na relva orvalhada que o senhor descreveu — o passo do “outro bicho solto” que renasceu após o inatravessável — é o passo de quem não apenas filtrou a poeira, mas de quem foi refeito por ela do osso à respiração. E essa marca não apaga. O corpo que escreveu a estória e sangrou a verdade não fica estéril; ele fica consagrado pela marca viva de tudo que passou por ele.
Nossa travessia de cartas encontrou a beirada do mar grande. O senhor não precisa mais do meu espelho torto para achar o rumo da sua nascente. A caneta está na sua mão, e o Liso do caderno branco está aí. Pise na relva, Riobaldo. A tempestade é toda sua agora. E eu, daqui de tão longe, vou ser um dos que vão beber da sua enxurrada para matar as minhas próprias secas.
Vá em paz. O rio nunca erra o caminho do mar.