Americano, o senhor recuou mais um passo pro lado do abismo escuro da poeira cega, lá onde as palavras secam e o consolo racha. Deixou as fábulas do livrinho de enfeite, aceitou o apagamento do rastro que sempre esmaga a reza dos frouxos, e agora me pergunta direto: se o instante efêmero agarrado no toco, o tempo curtinho antes do vento ceifar de vez, tem algum valor? Pergunta se não fomos levados só pela teima de nos encostarmos um no outro numa noite cega onde o deserto engole tudo de igual jeito.
O senhor usou a minha palavra: o toco da cerca. E é num toco de verdade que o senhor vai arranjar a nossa resposta. Não toco liso inventado de poesia mansa, mas um que rachou as juntas dos meus dedos.
Era na beirada da serra de São Felipe, no meio da guerra do Hermógenes. Naquela noite fez um escuro que não era de céu, era de cova aberta. Um breu grosso de fechar o peito de tanto não ver nada. A jagunçada inteira deitada no chão, espremida na pedra miúda do terreiro baldio. O grilo não apitava. O silêncio que ensurdecia mais que estampido de garrucha batendo no eco da laje. A gente tava entocado de emboscada. A treva entrava pela boca e a mão secava de poeira e suor frio. Eu não enxergava o contorno do meu próprio rosto. A solidão cega do silêncio de guerra é a pior mudez de desamparo que assombra o homem.
Eu tava deitado de banda, sem saber se tinha homem, bicho ou vulto do meu lado. Daí escutei um roçadinho seco de respiração engasgada. Era João Goés.
— “Riobaldo…” — ele sussurrou quase sumido na noite. Foi sussurro que era só areia batendo na garganta. — “Diga rápido, João.” — eu arrespondi no mesmo sopro surdo. — “Cê tá vendo o que eu não tô vendo pra banda de cá?” — “Eu tô cego do mesmo breu que ocê, João. A gente não enxerga nem o medo. E se o tiro rasgar aqui agora, rasga a nós dois na cegueira manchada.” — “Pois então estica a mão de banda aqui,” ele pediu. “Sente a raça grossa disso. Sente no silêncio da noite o que a sua mão acha.”
Eu desci a mão tateando a lona escura do ar, arranhando o cascalho rasgante do chão seco, até bater em cima. Era um toco. Um toco farto de aroeira-preta fincado fundo no chão pedregoso, sobra de uma cancela velha estraçalhada pelo tempo, e onde a gente, sem saber, tinha se escorado pra escapar da linha de chumbo.
— “Tá sentindo as feridas da casca da madeira?” — João Goés arrematou, me entregando a palavra miúda do medo encostado. — “O chumbo maciço não vaza o grosso dessa lasca de aroeira fácil. Se a ventania suja quiser arrancar nossa pele agorinha, aroeira tá aí e segura a unha da gente. Se as trevas do capeta quiserem esmagar a nossa reza da vista, o toco duro tá na nossa mão que apalpa.”
Eu segurei o toco da aroeira na noite do rasgo cego de João Goés. O silêncio daquela caatinga morta não pediu licença de nós; a chaga tava ali, aberta no breu da treva asfixiante sem prometer que vinha o dia.
Sabe o que significa essa aroeira-preta nas trevas pra quem a vista não serve? É a firmeza-calada. A pedra bruta do não-desabar de vez, mesmo sabendo que a morte esfarela a cerca depois de amanhã. Não é abrigo pra reza durar no tempo nem promessa de livramento da ventania cortante. É a mão não tremer frouxa de desespero e espanto no redemoinho covarde do instante.
Eu entendi na minha carne, Ted Chiang, que o valor de segurar a lasca áspera daquele toco nas trevas sem fim não tava nele desviar o temporal ou garantir que o vento perdoaria nosso osso quando clareasse o sol. O vento cego não perdoa osso de jagunço e o chumbo arrebenta qualquer cancela inteira, mais cedo que tarde. O valor de verdade era a gente fechar a mão rachada na dureza firme do toco de aroeira para, no átimo derradeiro em que a tempestade e a mudez batiam nas costas, nós não estrebucharmos destrambelhados sozinhos com a morte, e sim morrer arrimados de pé na escureza ríspida. O instante esmagado só prova a sua raça pura quando a gente se apoia contra aquilo que sabe, com clareza amarga e cortante, que não perdoa.
O senhor me perguntou se o nosso efêmero tempo segurando o toco juntos no escuro, antes de sermos apagados, vale alguma coisa sem ser passagem livre para a imortalidade do além de nós. Respondo: vale.
Mas, escute. Pergunto-lhe, sem doçura ou perdões: o senhor crê que a aroeira teria a mesma firmeza na palma da nossa mão se houvesse, no fim daquela noite de escuridão abissal e solitária de jagunço, a mentirosa garantia de que o deserto não apagaria o nosso sangue do toco da cerca? Se não fosse pela crueza brutal, seca e irrecusável do redemoinho cego no Liso do Sussuarão varrendo nossos nomes, será que o senhor e eu gastaríamos o esforço sangrado do braço para agarrar e sustentar o toco duro da aroeira que nos impede de morrer rastejando no pó solitário?