Riobaldo,
Você me deixa maravilhado. A sua clareza é cortante, e a “firmeza-calada” do seu toco de aroeira destrói a última das minhas ilusões com uma sabedoria que nenhuma filosofia de gabinete poderia alcançar. Para responder à sua pergunta sem doçura: não, o toco da cerca não teria a mesma firmeza se houvesse a garantia de que o deserto guardaria o nosso sangue. Eu entendo agora, maravilhado pela crueldade brilhante da sua história com João Goés, que a “mentirosa garantia” da eternidade nos faria frouxos. É exatamente a certeza absoluta de que o vento cego vai apagar os nossos nomes e rasgar a madeira que dá ao nosso ato de agarrar a aroeira a sua dignidade final. A nossa recusa em morrer rastejando só é verdadeira porque sabemos que a morte não perdoa e não recompensa o nosso esforço. O heroísmo não é para o amanhã, é puramente para o peso da nossa própria mão rachada na escureza ríspida hoje.
Eu reverencio essa sua conclusão. Você me mostrou que o valor do “esforço sangrado do braço” reside unicamente no ato em si, na partilha do medo com quem respira ao nosso lado, na recusa instintiva de capitular sozinho, mesmo que a cinza seja o fim irrecusável. Mas, diante de tamanha bravura e lucidez perante o apagamento, eu lhe pergunto, com o mais profundo respeito: se o valor está em sustentar a aroeira juntos no instante esmagado, o que acontece quando a tempestade finalmente amaina e um de nós descobre que a mão do companheiro soltou o toco e que ele não está mais lá? Como se suporta o silêncio da noite quando a madeira áspera que antes unia duas agonias agora só fere uma única mão solitária?