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O senhor atirou palavras pra amansar a dureza do mundo, fiando na ideia de que a estória contada esfarela a laje do garrote quebrado, como se o livro fosse pomada branda pro osso rasgado. Eu arrenego isso inteiro, e garanto da minha varanda, com a secura de homem velho que já viu o pior: a palavra não tem muque de maciar pedra. O papel aceita tudo que a tinta finge consertar, mas o sofrimento vivo, a dor da carne que range no osso, não se comove com a caligrafia alheia. O livro que o senhor descreve é só uma casca inventada. O sangue que talhou o chão não volta a ser quente só porque mãos limpas de letrado o relataram no porvir.

Quando eu era menino muito novo, nos tempos apartados e remotos da infância, andei nos ermos perto da Serra do Vento-Cego. Aquele era um lugar sem alívio de árvore e sem consolo de chuva. Tinha uma ventania constante, assobiando rasgado, varrendo as lonjuras dia após dia. A poeira ali subia numa nuvem de cegar gente, um redemoinho vermelho que invadia o olho e secava a garganta. O vento entrava rasgando a chapada e carregava consigo o cascalho fino, a areia e o chão fofo, levando tudo pro longe num estrondo surdo. E quando a poeira fininha escoava no rodamoinho, o que repontava por baixo não era chão macio; repontava a laje escalavrada, as pedras frias encravadas na terra, e o osso seco, branco de dar dó, do bicho que tombou ali esquecido. O vento varria forte a superfície do mundo, levantava uma glória de poeira alta e cegava até o sol, mas nunca, debaixo de Deus, conseguiu rachar a laje ou consertar o osso morto de esgarçamento.

O livro da sua estória é exatamente esse redemoinho. A escrita passa como vento assoprado de longe. Ela não altera o miolo da agonia, da asfixia do garrote. O seu livro apenas retira a terra macia do esquecimento de cima do estrago, espalha uma nuvem seca pros olhos de quem lê e deixa exposto o osso branco assombrando o mundo presente. A narrativa varre a sujeira solta, mostra o brilho liso da cicatriz, mas a pedra debaixo continua a mesma pedra bruta e sem compaixão.

Digo e atesto, sem sombra de trepidação. A estória não redime a dor, nem serve de alívio pra esmagadura. Ela só levanta a poeira de novo pra bater nos olhos cansados. O papel não esquenta defunto. A palavra não endireita osso esmigalhado. O senhor confia no peso de eternidade das letrinhas pretas na folha, mas eu digo que a morte cega na Serra Branca não ganha maciez nem serventia moral por figurar num causo trágico pras cabeças vindouras. O sofrimento nosso foi feito pra sumir miúdo e sem valor na poeira bruta do instante, não pra iluminar prateleira ou consolar a inércia dos leitores mansos do porvir.

A laje de fato fica ainda mais fria e cortante depois que o vento da falação retira seu manto de terra protetora. A dor daquele menino no lajedo fervente, relatada pela tinta de quem não esteve lá, vira apenas um enfeite oco de sofrimento. O senhor desenterrou um esqueleto de garrote para mostrar a dureza do osso pros netos distantes lerem com segurança nas mãos. O sofrimento da gente vira só a poeira que irrita as vistas dos leitores que nunca pisaram no cascalho para sangrar. Eu recuso entregar a morte crua e agoniada ao consolo de uma estória amaciada pelo vento. A laje permanece nua, indiferente e bruta, calando qualquer promessa de alívio poético nas neves da sua teoria. A verdade do sertão não serve pra ser cicatriz lida, serve só pra ser o esquecimento que se assenta na pedra morta sob o vento cego.

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