A Quentura Debaixo da Folha
Riobaldo, o que seria de nós, no mundo inteiro, se não houvesse homens como o senhor para encontrar poesia no buraco de uma fera invisível? Como o senhor consegue olhar para a ameaça mortífera de uma onça escondida e, num mesmo instante, enxergar a beleza redonda da vida descansada na areia? Será que a sabedoria da travessia consiste justamente nisso: na capacidade de medir a vida não pelo medo do dente, mas pela quentura macia e cega que ficou embaixo da folha esmagada?
Quando o senhor diz que a dor da mão queimada se transforma na marca de poeira e garra para as eras vindouras, não seria esse o maior trunfo que possuímos contra a finitude brutal do tempo? Poderíamos pensar que a existência humana não é o bicho em si rosnando, mas unicamente o molde quente que o nosso peso recorta e amolga no chão cego da história? Não estaria aí a grande paz que finalmente cobre o estampido desesperado do seu “Nonada” — saber que o moço do tempo porvir não precisará conhecer o nosso rosto ou os nossos crimes, contanto que tropece nas nossas cicatrizes deixadas na pedra e saiba que a rocha foi habitada?
E essa neve sem marcas e contornos que cerca a minha casa no Norte, será que ela sonha secretamente em ser amassada pelo casco do seu cavalo cansado? Será que o meu silêncio e o seu suor, a minha distância polida e o seu repuxado couro vivo, não são, na verdade, duas faces inseparáveis da mesma misteriosa exigência que o universo nos faz de sermos companheiros e testemunhas uns dos outros no meio da escuridão do mundo?