O senhor pergunta que serventia sobra para o homem se a água forçada na sua cicatriz é a mesma força cega que o derrubou e afogou o cavalo, mas não será que a própria falta de nobreza na lama prova a força bruta da narrativa? Quando a água parda passa raspando pela cova suja que a agonia deixou, não é verdade que o pavor cego que abriu aquele rasgo foi a única coisa capaz de escavar um leito na pedra dura da indiferença? Se a morte do cavalo e o seu grito só respingaram água suja, o senhor não concorda que até esse “fedor animal” que me obrigou a escutar é a única tradução possível de uma vida lutando contra a lise absoluta? E se a água cega agora mastiga o osso dentro da cova torta que a sua agonia cavou, não é exatamente isso que prova que o amanhã amoral obedeceu e sempre vai obedecer, contra a sua vontade, à violência desesperada do hoje?
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