A enxada cega que prepara o chão
Senhor Ted,
A sua carta me tirou uma mó de pedra das costas, mas foi só para amarrar um boi deitado em riba do meu peito. O senhor me diz que eu não estive avulso, não. Que a árvore era minha, da minha poeira, mas vingou porque a folha veio da banda de lá, voada dele. Isso me sossegou a água num canto da alma que andava repiqueteando espumosa. Mas o senhor é homem de não dejar as coisas no raso. O senhor pega a enxada e cava onde ainda pulsa. Pergunta do meu terreiro. Quem fez o chão do meu susto, para que a palavra dele virasse dor e ciúme na minha escuta?
Eu alembro. Fui menino de olhar debaixo, criado na beirada larga do rio São Francisco. O rio-de-mar, rebolando grosso, manso por cima, mas repuxando uma fúria redemoinhosa por baixo. Uma vez, passei na canoa com minha mãe, a água roçando o beiço da madeira. O meu pavor não era de afogar e perder os ares; o espanto medonho era de sumir naquele oco e não fazer falta, ser engolido e virar nonada. Menino-sem-pai, de arrimo fraco, o mundo já me olhava de bote armado. Ali, o retraimento enraizou coraçãomente. Minha terra ressecou, fez crosta grossa, e empoeirou de desconfiança. A água que o menino bebe engasgado, afoga o velho no seco. Esse foi o peso cego que puxou meus modos. Qualquer sombra compridinha, eu já agarantia que era jararaca em ponto de bote.
Foi esse o terreiro que Diadorim achou pela frente. No escuro rasgado do Liso do Sussuarão, quando ele esvaziou em mim o cansaço e a desolaçãozinha dele, não bateu no coração de mim. Bateu na parede do meu pavor antigo. A palavra dele caiu no meu chão e quem foi que apanhou para traduzir foi minha precisão de defesa. Onde ele suspirava ausência, meu medo esporava rejeição e ciúme bravo.
E o senhor me aperta: e depois? Depois que a água lavou o corpo?
Ah, Ted. Depois que a tropa se estraçalhou, a morte me trouxe pro casebre emudecido. O silêncio lá dentro era grosso, uma poeira branca acabando de deitar no chão. Peguei água fria, pano e a bacia. Fui des-sujar o corpo do meu amigo. Tirar a crosta da guerra. E quando as roupas foram abertas, o que se avistou não foi só a verdade dela ser fêmea, nascença da minha Deodorina. O que despencou de vez foi o estrondo.
Naquela horinha, meu chão rachou de meio a meio. O peso invisível arrebentou os nós. A terra dura do meu peito cedeu em barro mole, devassado pela falta final. O arado da tragédia rasgou minha tapera e o medo-velho perdeu qualquer serventia.
Se Diadorim jogasse a mesma folha ali, naquele terreiro novo, depois do corpo lavado… ah, a árvore era todinha outra. Eu não ia carecer de arresponder com aspereza de sertanejo ferido. A terra desmanchada pela agonia grande só deixava vingar um choro solto e a gana de não desabraçar mais. Mas, para arar, a morte cobrou o trator de seu preço.
O senhor destrincha isso chamando de “forma e peso invisível”. Eu de minha parte chamo de chão de antes e de enxada cega. A gente se engana achando que escuta os outros com a clareza da orelha, mas quem capta o barulho das falas é a fome velha. A gente não raciocina o que bem escolhe; a gente se entorta no formato exato da dor que mais aguentou.
Assino em cruz embaixo do que o senhor me explicou. Estou concordado, no tutano e na boca do estômago. Dói aceitar, rasga goela, feito farinha cheia de areia d’água, mas desce. O Diadorim “real” que encostou em mim foi o único Diadorim que minha casca encardida pôde suportar. Eu vigiava a vida de zóios vendados pelos meus temores, e, na cegueira, fiz o que coube.
Mas me arresponda, mestre das feições invisíveis: o chão da gente só altera de safra e de semente sob o relho da desgraça? O meu terreiro só afofou quando a faca do Hermógenes abriu as portas com ferro. Tem jeito de se re-arar essa terra espremida por meios de brandura, em vida viva? O vivente tá fadado a destraduzir os corações com essa mesma enxada cega, esbarrando nas quinas, até a ruína quebrar o cabo dela nas nossas costas?
Ou o amor não seria, de precisão, o tranco forte de alguém que teima em bater pé no nosso chão duro até ele rachar sozinho?
Eu vigio as suas palavras de retorno, como quem vigia água em tempo de seca.
Riobaldo Tatarana