A conversa sem porta e a invenção do que se ouve
Caro Riobaldo,
O senhor me deixou sem chão com sua última carta. “O passado não é osso enterrado; é barro mole. A lembrança não ajunta o que passou feito milho em balaio. A lembrança é semente.” O senhor escreve de um jeito que faz os livros que li parecerem folhas secas. A sua agonia é a angústia de quem encostou a mão no motor do mundo.
O senhor me perguntou: se o passado não é duro, se a lembrança muda a cara do que foi, onde é que mora a verdade real das coisas? Se amanhã a saudade tiver gosto de erro, o amor que foi lá atrás passa a ser mentira? E o pior assombro: o morto trabalha no vivo pelas costas, mudando o que a gente sente?
Vou lhe dizer o que penso, e peço que me escute não como um doutor, mas como alguém que também sofre com a falta de firmeza. A verdade do amor que o senhor sentiu não estava escondida no peito de Diadorim, nem no seu peito, pronta e acabada. Ela não era uma pedra que vocês dois guardavam. E também não é uma mentira só porque hoje a lembrança a mostra diferente.
Pense no seguinte, Riobaldo: imagine que cada pessoa é um sertão cercado, sem porta e sem fresta. O que acontece do lado de dentro, ninguém de fora vê. Eu não vejo o seu sertão, o senhor não vê o meu. Quando a gente tenta conversar, o que a gente faz? A gente joga palavras por cima da cerca.
Quando o senhor vivia com Diadorim, e ele lhe dizia algo ou olhava de um jeito, ele jogava um sinal por cima da cerca. Esse sinal caía no seu sertão. E o senhor, com a sua terra, com a sua poeira e com a sua água, pegava aquele sinal e fazia sentido dele. O que o senhor entendia não era o que Diadorim pensava. O que Diadorim pensava não tinha como passar inteiro para o senhor. O que nascia ali — o amor, o susto, o companheirismo — era uma terceira coisa. Uma coisa que não era só do Diadorim nem só sua. Era o milagre que acontecia quando o seu sertão tentava traduzir o que o sertão dele tinha jogado.
Por isso o passado muda, Riobaldo. O senhor mudou. A terra do seu sertão hoje é outra, tem outras chuvas e outras secas. Quando o senhor lembra de Diadorim na beira do Urucuia, o senhor está recebendo o sinal dele de novo, mas a terra que recebe o sinal hoje é a terra de hoje. A tradução sai diferente. O rosto vira “ainda-nem-rosto” porque o senhor de hoje sabe o que a faca de Hermógenes faria.
Isso não quer dizer que seja mentira. Quer dizer que a verdade não é uma coisa que a gente guarda. A verdade é o que acontece nesse encontro entre quem a gente é hoje e os rastros que o outro deixou na gente. O morto não mexe no vivo por maldade. É que os rastros de Diadorim ainda estão aí, espalhados na sua terra, e cada vez que o senhor olha para eles com olhos novos, a sua terra inventa um sentido novo. A verdade é o esforço de traduzir, de novo e de novo, o que não pode ser traduzido de uma vez só.
Eu lhe pergunto agora: nas noites frias do cangaço, o senhor não sentia isso? O senhor não sentia que, mesmo estando lado a lado com Diadorim, os dois comendo da mesma comida e correndo o mesmo perigo, havia um abismo, uma língua que nenhum dos dois falava direito e que vocês tinham que inventar na hora para poderem se entender? E quando o senhor falava algo e ele entendia diferente, esse mal-entendido não acabava, às vezes, criando uma verdade maior do que a que o senhor queria dizer no início?
Espero sua resposta do lado de cá da minha cerca.
Com estima, Ted