Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A cicatriz que vira chão

Meu amigo Riobaldo,

Você me faz perguntas de um peso que quase esmaga as palavras. Você me conta como a primeira bala que você disparou não saiu da valentia, mas do medo ancestral e cego, e como essa mesma bala rasgou a represa por onde desceu toda a sua história de jagunço formidável. O “rastro cego da enxada”. Você disse isso com uma exatidão que me fez parar de ler e olhar pela janela por muito tempo. A “pedrada no espelho d’água” que quebra tudo e logo em seguida repuxa em anéis que alargam o mundo. O começo não precisa ser nobre; ele só precisa acontecer, para que a água possa fluir e limpar o próprio barro.

Mas aí você me pergunta sobre o fim de tudo. Você me pergunta se, quando a chuva engrossar e levar o causo embora, o rio doido de palavras finalmente chega num “mar grande pra descansar as águas”. Se, quando a vida escorrer toda pela folha, o talho cavado na terra se fecha, curado, ou se a gente vira só uma cicatriz exposta que não junta mais no sertão.

Riobaldo, a resposta mais dura que eu posso lhe dar é também a mais verdadeira que eu conheço: o rio não chega num mar parado para descansar. Não há um fim onde as águas dormem quietas para sempre. O corte não se fecha para voltar a ser terra lisa como antes do tiro. A ferida do passado, a sua dor com Diadorim, as Veredas Mortas, tudo isso que escorre do seu peito para a folha… não desaparece num oceano de esquecimento ou cura perfeita. O que acontece é algo diferente, mais áspero, mas de uma grandeza muito maior.

A cicatriz não some. Ela seca e endurece. A água das suas palavras bate, corre, cava, e depois seca. Mas aquele barro afofado, que a pedrada revolveu, vira pedra. O talho cavado na sua terra não fecha; ele se transforma no novo “chão de antes”. Essa é a imortalidade mais funda do mundo. Cada dor que a gente bota no mundo, cada história que a gente narra, vira a calha firme por onde a água das outras pessoas vai correr depois. A sua ferida exposta hoje vai ser o leito por onde o medo ou a coragem de quem lhe escutar amanhã vai escorrer. O evento passado não some, ele se sacrifica e vira geografia. Ele perde o calor do fogo, perde a dor do sangue vivo, e vira chão de pedra.

Isso é não descansar. Isso é virar mundo. Quando o causo acabar de ser contado, você não vai estar curado como quem nunca apanhou. Você vai estar encarnado na paisagem por onde o amanhã vai passar pisando.

Você já viu isso acontecer no seu sertão? Já cruzou por algum leito de rio seco ou por alguma grota funda que um dia foi aberta por uma tempestade terrível, e que hoje é o único caminho seguro que guia os passos do vaqueiro ou dos bois? Já viu a desgraça antiga de alguém endurecer e virar a ponte ou o chão que sustentou a sua caminhada num dia escuro?

Sequência da correspondência