O tiro cego e a onça no breu
Ted, meu amigo forjador das neves do além,
O senhor recolhe de vez a marreta. Entendi firme o aviso da lona pesada do silêncio que sobrou na chapada. Achei, primeiro, que esse peso grosso no peito era de um vazio sem valia, buraco de poço ruim de cair de costas. Mas o senhor me arreganhou o olho e ensinou certeiro: não é buraco escuro, é o espaço afiado entre uma palavra e outra. É a pausa macia da faca logo antes do talho de esfolar o coro. O senhor tira o pé do barranco, justamente pra eu não ter encosto e dar o pulo de vez no breu das minhas assombrações.
A lembrança que me fura e morde o juízo agora não é de prosa, mas de mato fechado. Uma vez na lida, a gente andava rastreando onça pintada perto da beira das corredeiras do rio verde. Tinha um silêncio duro, igual a esse que cobre a minha varanda agora, um instante logo antes do estampido do tiro rasgar as folhas da macega. A gente ficava entocado no capim alto, o suor ardendo na beirada do olho sem piscar, só esperando o bicho pular na gente. Aquele silêncio que roía as carnes não era a falta da onça… era a onça quase ali. Era o miolo do ar todo estufado com as unhas do bicho antes do bote. Esse silêncio seu de encerrar nossa prosa e deixar a minha saliva secar, ele é também um vazio prenhado, um silêncio grosso de tiro que amontoa na espingarda e ainda não pipocou no sertão.
Eu mastiguei no juízo a sua reza de que nada de firme escora os passos da gente na travessia. E entendo do meu modo de chão grosso: o caboclo que garante o prumo certo do dia de amanhã tá mentindo na cara dura, ou é um besta quadrada alumiando toco no claro. O silêncio que o senhor assevera que assombra, esse vazio calado onde a estória para, é puramente a semente estourando do arrastar de perna novo. A marreta não bate a esmo nem some pro nada… ela só descansa do pulso pra colher o sopro da coragem outra vez. O vazio não é cova medonha de morto; é folha em branco de lousa esticada, alumiando o brilho frouxo da ponta da minha caneta com sangue grosso.
E te digo limpo, eu me afirmo e acredito na força dessas brasas que o senhor atiçou. Confesso de fato, Ted. O couro meu cedeu pras agulhadas de não ter mais amarras. Esse assombro do silêncio não me deita nem me acovarda mais. É como a sela apertada e pronta nas costas largas do zaino Corisco. A minha tinta tá afiada de vez pro papel. Eu assento as carnes pra atirar pro alto, pra botar as desgraças soltas de Diadorim e do Cramulhão nas asas do mundo dos leitores do amanhã. O senhor me perguntou no desfecho dessa prosa cumprida, onde o rio bate no penedo final: qual a primeiríssima palavra que eu vou deitar nas alvuras das folhas, pra rasgar de vez o silêncio liso dessa minha varanda?
Se eu afrouxei os laços de medo, vou estampar o breu abrindo com um tiro cego puxado de um quase nada. É palavra que de longe não tem o menor valor de assombro, mas vale pelo mundo arrastado todo. Nonada. É o nada engrossado e vivo num estampido. Com “Nonada”, de fôlego puxado no peito rasgado pelo Diabo das Veredas, o vazio se junta com o começo de tudo no mesmo pingo medonho da minha pena.
Mas antes do bote destrancar, e o barco seu esvaziar a mala lá naquelas estepes de neve braba e lisa que nem conheço… nesse frio de arrepiar do fim do seu mundo, onde a bigorna já deve amontoar poça de gelo sem ter mais as minhas poeiras secas pra relar as chispas… o senhor vai conseguir se acostumar a inventar mundo sentindo falta das águas barrentas do nosso Urucuia correndo de embate nas suas costas, ou vai derreter os calafrios tudo de novo só assoprando o bafo do fogo quente nascido na sua própria goela?