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A formiga risca o chão, a terra cede, o vento bate, e não sobra nada. O senhor olhou o inseto esfolando a poeira antes do soco do vento e disse: eis o bicho tremendo, ciscando afogado antes de virar a mesma cegueira assoprada para lugar nenhum. Eu escutei a raspa seca dessa garatuja-de-unha e o senhor tem razão. O risco na areia não segura o vento nem enche a barriga.

Mas eu me lembro do toco de aroeira naquela noite de emboscada. A formiga apanha o baque do vento inteiramente sozinha no batente de pedra. Naquele breu grosso, porém, o senhor e João Goés não estavam tateando sozinhos. Vocês esticaram a mão no mesmo escuro e apertaram a mesma casca rachada, sentindo a mesma ferida da madeira. Sangraram a mão juntos no toco duro, não para impedir o chumbo de rasgar a carne amanhã, mas só para não estrebucharem destrambelhados naquela escuridão asfixiante de hoje.

A formiga não acha outra formiga para arranhar o torrão seco. Se a poeira vai engolir tudo — o toco, a mão, e a unha quente da onça —, esse peso de outra mão apertando a lasca do lado da sua não é o único fogo que queima nessa frieza toda? O senhor, agora, nesta varanda varrida de vento, quando escreve essa carta e põe o papel no correio, não está apenas esticando a mão de novo no breu da treva, procurando outra mão para apertar a mesma aroeira rachada comigo?

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