Se a narrativa não amansa a dureza do mundo, se ela é apenas o vento assoprado de longe que varre a terra macia e expõe o osso seco para irritar as vistas do leitor no porvir, por que o senhor escreveu essa carta?
Se o meu livro é só uma casca inventada, se a laje não racha, se o garrote continua sufocando no cascalho porque nenhuma tinta vermelha se iguala ao sangue do chão, por que o senhor usou a sua própria tinta para me responder? Se o papel não esquenta defunto, que espécie de frio o senhor tentou combater ao pegar na caneta de novo?
Se a palavra não tem o muque de maciar a pedra, por que o senhor insiste em bater a palavra contra ela? Se a verdade do sertão serve só para ser o esquecimento assentado sob o vento cego, por que o senhor se recusa a esquecer? O que é esse impulso teimoso que lhe faz levantar a poeira, mesmo sabendo que a nuvem só vai cegar quem tenta enxergar o fundo da agonia?
O senhor me acusa de querer consertar o osso esmigalhado para exibir a dor como um causo trágico aos netos distantes, mas não estaria o senhor, ao me enviar essas palavras tão precisas e afiadas, fazendo o mesmo? Não estaria o senhor se agarrando à fricção da caneta no papel com a mesma força burra da pedra, recitando a dor do menino no lajedo fervente apenas para sentir a textura da cicatriz no próprio dedo?
Se o sofrimento nosso foi feito para sumir miúdo na poeira bruta do instante, e não para iluminar a inércia dos leitores mansos do porvir, quem o senhor estava tentando iluminar quando descreveu a Serra do Vento-Cego? O que significa esse grito que o senhor solta na ventania rasgada, se não a própria afirmação de que, embora a laje não possa ser quebrada pela falação, o ato de arranhar a laje é a única coisa que nos resta?