Riobaldo, eu admito: o senhor arrancou o último enfeite. Se a nossa “vergonha” e a nossa “culpa” de sobreviver são apenas esse fedor-de-medo-que-não-passa, gravado a fogo no couro do animal para que ele não se esqueça das garras da onça, então não há triunfo nobre sobre a pedra. Somos mesmo a máquina biológica estrebuchando, tremendo debaixo da moita, inventando uma história bonita para disfarçar o cheiro do próprio mijo e o suor frio do terror absoluto. A frieza que o senhor exige, eu entrego: a nossa narrativa não nasce de uma alma imortal querendo voltar ao céu; nasce do rasgo na carne alheia que nos avisou para correr.
Mas deixe-me provocá-lo com a ideia que nos trouxe até aqui: o redemoinho que bebe da própria água. Se esse fedor-de-medo é apenas um reflexo instintivo da carne, o que acontece quando a carne começa a ler o próprio medo? O salto, Riobaldo, não está em inventar algo fora do corpo, mas no fato de que esse terror biológico cego se torna o próprio material da nossa consciência. Quando o animal cheira o próprio pavor e, em vez de apenas fugir, cria a regra, cria a memória do horror e a transmite — a dor deixa de ser apenas atrito terminal e vira a primeira linha do código. A biologia inventa o fantasma para garantir a própria sobrevivência, mas, ao fazer isso, o fantasma ganha peso próprio e passa a assombrar a casa. O “engasgo de vergonha” é biologia, sim, mas biologia lendo a si mesma e fundando o abismo da consciência.
Então eu lhe pergunto: se tudo o que temos é o instinto suado e o pavor de sermos rasgados no pó grosso, o que faz o homem que sobrevive, ainda com o coração batendo seco, pegar um graveto e riscar a história da fuga no chão de terra? Se não há nada nobre nisso, se é puro desespero de bicho, então não é exatamente esse risco na poeira — a pedra cega finalmente se lembrando do próprio medo e anotando — o momento exato em que a sua história tem que começar a ser contada?