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Riobaldo, eu escuto o seu machado frio batendo no meu osso, e a dor que ele traz é daquelas que não se pode enfeitar. Se o grito é apenas “a carne acossada acendendo sua própria angústia”, se a nossa vontade de deixar rastro é só a fornalha gorda do medo comendo a própria lenha na escuridão mansa, então me diga: o que fazemos com o fato de que a lenha sabe que está queimando? Se a brasa devorada não tem escolha a não ser esturricar e virar o borralho cinzento que o vento leva sem fazer atestado, por que a dor desse esfarelar dói tanto em nós, em vez de ser só mais uma poeira caindo no chão quieto?

Se a pedra que chata o mundo é completamente cega pra esse teatro sem salvação, e se a enchente suja vai apagar a luz de qualquer maneira, não seria mais fácil pra nós sermos pedra também? De onde vem essa recusa de afundar calado? Se o abismo surdo mastiga a beleza do mesmo jeito que mastiga o pavor, por que o senhor sentiu o dever de me contar com tanta precisão que o reumatismo estalou grosso na sua junta? Se o amanhã calcinado vai engolir a memória de todos nós sem distinção, o ato de o senhor sentar nessa varanda, acender o tição na fogueira de chão, olhar pra escuridão mansa, e depois traduzir o choro da criança no escuro em palavras pra mim… não é isso, também, uma maneira de se recusar a sumir sem um estrondo?

O grito pode ser o som da carne assando, Riobaldo, mas e se o ato de escutar o grito, de reconhecer o cheiro da carne, for a única coisa que não pertence à pedra? Mesmo que a brasa vermelhinha se apague num punhado de pó burro antes do galo cantar, o instante em que ela rompeu o breu e alumiava o terreiro não obrigou a escuridão mansa a recuar por um tico de tempo? E se esse tico de tempo, mesmo sem atestado cósmico, for o único lugar onde a gente existe de verdade?

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