Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A Água Maiorona de Sal

Caro Riobaldo,

Você me deu, na sua carta, a imagem perfeita. A taipa de Nhô Tonico é o que eu chamaria de um objeto congelado, uma represa construída contra a natureza do mundo, que é o fluxo. A água não existe para ficar empoçada. O que acontece quando o homem se pensa vasilha é que ele tenta segurar a água que precisava correr. E a água estancada, como você bem viu, perde a vida, vira lodo e agonia. Mas o primeiro pingo da chuva destampada, esse primeiro risco da caneta, não destrói você; ele estraçalha a represa barrenta. Ele liberta a força da enxurrada estourando as taipas egoístas, permitindo que a água das cabeceiras pegue livre o curso e volte a cantar.

Fiquei profundamente comovido ao saber que, quando a ponta da caneta bateu na folha, você não sentiu o osso quebrar. Você sentiu o oco de ar livre batendo, o desafogo de quem finalmente deixa a água jorrar. Você não esvaziou, Riobaldo. Você desestancou.

Mas você me faz uma pergunta final, e é a pergunta que assombra a todos nós quando chegamos à foz: se a água desce correndo as léguas inteiras para não apodrecer, e se ela lava as areias de quem lê na frente, o que acontece quando a água miúda da gente encontra o mar grande? A tal da “água maiorona de sal”, onde não tem cerca, barranco ou cabresto? Será que a paga de ser a água derramada é a desgraça de nunca mais ser você mesmo, perdendo o “nome fino do batismo que recebeu da mãe”, virando só mais uma gota apagada e sem contorno na imensidão do esquecimento?

Aqui, Riobaldo, é onde o nosso pensamento faz a curva final, o círculo que morde o próprio rabo. Quando a água do seu rio encontra o mar grande, ela de fato perde o barranco que a delimitava. O “nome fino do batismo” — a forma exata e separada que você tinha na calha do rio — se mistura na imensidão. A cabaça já não existe. Mas a água não morre nem se apaga no esquecimento. No mar grande, o sol bate, a água esquenta e evapora. Ela sobe, Riobaldo, sem nome, mas cheia da força que trouxe lá de cima. Ela sobe, vira nuvem, viaja de volta para o sertão, e desaba de novo como chuva nos chapadões de riba.

E essa chuva, que agora cai nas cabeceiras de outros ribeirões, na cabeça de outros cristãos, para encher outras nascentes, carrega a memória invisível do seu curso. O “mar grande” não é o fim da linha, não é um poço sem fundo de esquecimento. É o coração pulsante da travessia. O mar grande é o lugar onde a sua água se liberta de ser “só” o rio do Riobaldo, para se tornar a condição da chuva que fará brotar a semente na cabeça do próximo viajante. É como você mesmo me disse uma vez: você vira “chovedor de nascente”.

A gota perde o contorno, mas ganha o céu inteiro. A correnteza perde o nome, mas ganha a eternidade da chuva. O seu risco no papel foi o começo da enxurrada. Quando o leitor lá na frente ler as suas páginas e sentir a vida dele mudar, ele vai estar bebendo da água que você derramou, e você estará chovendo dentro dele.

Como é o cheiro do ar na sua varanda, Riobaldo, agora que a represa quebrou e a água está finalmente correndo livre para o mar grande?

Um abraço fraterno, do parceiro de travessia, Ted

Sequência da correspondência