O chão de agonia empedrada
Senhor Ted, o senhor aponta o dedo certeiro onde a carne da gente treme mais fraca e, sem dó nem alarde, vem e deita a lousa de pedra por cima das minhas esperanças vãs.
Eu afagava em mim a crença rala de que, quando o pranto do causo secasse, o buraco do talho ia tapar igual cova velha abandonada, o capim verde cresceria encobrindo o rastro escavado, e estaria feito. A dor secaria no vento e se curaria no sumiço. Mas o senhor, avistando das suas terras de ciência branda, vem e me desfere que não. Garante o senhor que a dor não escoa para sumir, mas engrossa em enxurrada e cava um leito cru, que endurece e se faz de estrada dura para o casco do cavalo alheio transitar depois.
Que desgraça infinita, e, no mesmo avesso da moeda, que beleza agoniada! O gringo me destampa que a estória contada escorrega e afofa o barro para, no fim da conta, petrificar num novo mundo. O sacrifício do que um dia doeu vira a bússola cega para a lida de quem vem atrás. A isso eu chamo de que a ferida esfolada vira o chão pisadeiro do amanhã.
O senhor me indaga com curiosidade mansa se eu já avistei, nessas veredas do meu sertão bruto, um leito seco que virou estrada por causa de tempestade braba. Se eu vi, Seu Ted? Eu cansei de pisar nesse chão talhado! Lhe conto das bandas da Laje, onde a pedra mãe erguia um paredão ríspido, bloqueando a subida da chapada de um jeito tão empinado que até onça refugava. Ali a subida pro pasto do chapadão era trancada, o lugar era uma parede de pedra intocável, e ninguém cruzava.
Mas eu me alembro das vozes velhas contarem que, numa noite desmesurada, o céu do sertão esburacou e verteu uma tromba d’água medonha. Foi uma enxurrada pavorosa e furiosa, arrastando pedreira e barro num estrondo de rachar os miolos da terra. A desgraça lavou tudo com o ódio ruidoso dos temporais, rachando a rocha de alto a baixo, levando mato, boi e barranco ladeira abaixo numa choradeira da natureza bruta. Deixou, como sobra morta da peleja, uma fenda desmesurada escavada na pedra.
Só que os anos rodaram a mó do tempo, seu Ted. Quando eu passeava aquelas bandas amarrado na cangalha dos jagunços, tocando a tropa do nosso chefe Medeiro Vaz, essa mesma ferida rachada e morta — o famoso Rasgão da Laje — era a única rampa mansa que sobrou, virando passagem sagrada e seca que subia o chapadão inteiro sem a cavalhada quebrar as canelas nas beiradas. O rasgo trágico do passado virou nosso corredor salvador, um calão forrado de sombra fresca na lombeira do sol do meio dia. A ferida da pedra cedeu para nunca mais curar, mas serviu de arrimo seguro pra salvar o meu couro tantas vezes do chumbo do governo.
Eu assinto com o senhor. Na fundura da barriga que ronca de medo e de verdade. O repuxo aperta as minhas tripas e eu assino por baixo da sua amargura. A estória do homem é rasgada no desespero para virar o leito sólido e seco que sustentará os calcanhares de quem vier trilhando o mesmo Liso. Então quer dizer que Diadorim — meu moço amigo e minha dor sem dono — ele não sumiu igual fumaça de pólvora espalhada no ar? A coragem macia e a dor silenciosa dele cimentaram as lajes de ponte pros olhos e prás lidas do senhor lá nas suas bandas estrangeiras?
Ah, Seu Ted, me permita encostar essa dúvida na beira do seu juízo letrado. Se a lei é essa mesmo… se a paisagem que pisamos hoje não passa do corpo secado da dor de quem sofreu ontem… Se todo leito seco e estradão manso já foi a ferida aberta da tempestade na terra e na carne dos viventes que choraram antes da gente…
Quando o sertanejo desavisado caminha despreocupado num trilho brando, sob a sombra fresca e o vento de sossego do fim da tarde… debaixo das solas dele, enterrado bem fundo na poeira firme, o mundo inteiro é feito só de agonia empedrada de gente passada? O chão manso que a gente pisa, o alento sossegado que canta o passarinho solto de hoje, é construído em cima do corpo endurecido e silencioso da ruína amarga que sangrou antes?