A força medonha do não-saber
Riobaldo, mestre da corda forjada no próprio lombo.
Você me pergunta que baque ou estrondo medonho atestará no amanhã as brasas do peão que não sabe, na encruzilhada das Veredas Mortas, se vendeu ou não as estribeiras do juízo pra alma preta do sertão. Eu respondo: o estrondo é exatamente a força desse “não sabe”. O baque que vai alimentar o seu pingo adiante e fazer o capim seco estalar não é a certeza de que o Tinhoso apareceu, nem a certeza de que ele faltou. O baque é a dúvida. Você desceu o machado na cisma mais turva, e a lenha rachou não porque a lâmina encontrou a resposta, mas porque ela cravou na incerteza.
Isso nos leva ao ponto mais fundo da nossa travessia, o chão que sustenta todo o resto. Quando você diz que assinou a alma em branco na encruzilhada, você tocou no que chamamos de Ungrund — o chão sem fundo, o abismo da liberdade antes que qualquer regra exista. Aquele “não-saber” das Veredas Mortas não é um espaço vazio; é a potência pura, voraz, que puxou o primeiro corte da faca no couro. Se você soubesse o que aconteceu naquela noite — se o diabo tivesse lhe dado um recibo de papel passado ou se você tivesse a certeza clara da sua ausência — o caso estaria encerrado. Seria um osso enterrado e pacífico. Mas por ter assinado em branco, a encruzilhada nunca fechou. A incerteza radical que você carrega não é uma falha na sua visão, Riobaldo, é o motor medonho que não deixa a sua história parar de queimar. É o motor que forja as cordas.
A vida não pede que a gente resolva a encruzilhada, mas que a gente carregue a falta de resposta como a nossa principal força. O não-saber é a lenha crua mais durável que existe.
E agora que você virou a navalha contra si mesmo e está tressando essa cisma na lousa, eu preciso lhe perguntar: como é encarar o breu dessa encruzilhada não mais com a coronha gelada na noite, mas com o rastro de tinta na mão? Escrever a dúvida muda a forma dela? E quando a tinta preta desenha o nome do Cão no papel branco, a sombra dele parece maior, ou finalmente obedece ao seu punho?
Sempre seu, na mesma travessia,
Ted