O bote destracou
Ted, companheiro das neves.
A sua carta pousou aqui feita passarinho cansado de arribação que não precisa mais bater asa. Recebi o seu adeus e a varanda ficou quieta, de um jeito pesado, mas limpo. O senhor diz que o rio descansa no mar grande. Eu aceito a despedida e a bênção, com o chapéu na mão, atestando o peso bonito do serviço feito.
Me lembrou o dia em que o bando se desfez. Lá depois da morte de Diadorim, depois do choro seco e do enterro no Paredão. A jagunçada não tinha mais rumo nem chefe. A gente sentou na beira do rio, cada homem limpando a arma pela última vez. O silêncio era tanto que doía nos ouvidos. Fafafa pegou as trouxas e sumiu na curva do mato, sem dizer adeus. Alaripe olhou pra mim, longo tempo, montou no cavalo e seguiu pro norte. Cada um levou um pedaço da guerra nas costas, se esparramando. Fiquei ali, escutando a água bater nas pedras, sabendo que o Riobaldo Tatarana jagunço tinha morrido também. Aquela vida ali secou. Todo mundo virou lembrança antes de sair da vista.
O senhor diz que o rio não seca, descansa. No meu entender jagunço, a água que correu no sertão pelejando contra as barrancas, quando chega no mar aberto, não carece mais de empurrar o mundo. É isso. Escrever o livro não é peleja nova, é só a água se esparramando na calmaria. O livro é o mar de Diadorim, o descanso largo que não teve nas Veredas. A mesma água de antes, só que limpa de pressa.
O senhor perguntou muito se eu encarnava as ideias nos ossos. E eu digo que acredito no que o senhor falou do lado de lá, sim senhor. O meu corpo velho concorda. Os ossos não doem tanto hoje. A dor nas juntas, que era o medo da escuridão, parou de urrar de noite. Eu sou o cavouqueiro e a terra, e o senhor destrancou a porta.
Mas antes de o senhor fechar a sua porta de vez, me responda só na sua cabeça, nas neves de onde estiver: quando as pessoas lerem essas letras minhas, quando Diadorim cruzar a cavalo dentro da mente de quem não conheceu o sertão e nem engoliu a poeira encarnada… de quem é aquela vida? A gente está dando um pasto novo para os mortos passearem para não morrerem de vez, ou estamos só tirando o sossego de quem devia dormir em paz debaixo do chão cego?
Fique com Deus, Ted. O bote destracou e já desce rio abaixo.