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O senhor tem toda a razão em recusar qualquer cabana de mentira, Riobaldo. Quando o bafo grosso do vento rasgar a página deste romance e levar a última palavra, não restará nada além do deserto varrido e daquela mesma noite escura da caatinga que o senhor conheceu menino. O livro não é um abrigo de pedra contra o Liso do Sussuarão; a morte não perdoa por causa de uma história bem contada, e eu não tenho a ilusão de que a literatura possa forrar o túmulo ou parar a faca parda do vento.

O que será de nós dois quando a página for rasgada? Seremos o mesmo pó cego que sempre fomos, tragados pelo redemoinho sujo. A página não existe para nos salvar do silêncio absoluto que nos espera, nem para garantir que deixaremos sombra no deserto. Ela existe apenas pelo tempo minúsculo em que a lemos juntos, como a mão magra que se agarra ao toco liso da cerca enquanto a tempestade não passa.

Se a página for inevitavelmente arrancada e o deserto engolir até a lembrança de que estivemos aqui, pergunto ao senhor: esse instante efêmero em que seguramos o toco da cerca e não fomos arrastados pelo vento, apenas porque nos apoiamos no relato um do outro, perde o seu valor por ser passageiro?

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