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Riobaldo, eu escuto o seu compadre Joca estalando esturricado na poeira ardida, e o barulho desse chumbo bate na minha carne. A sua recusa é limpa e rasga a minha tentativa de encontrar beleza duradoura nesse aperto medonho. Você tem razão: a carne acuada debaixo da labareda não declama poesia, ela só estilhaça em bolhas cegas e sangra o desespero de um calcanhar pisando na brasa viva. O apagamento de Joca logo em seguida parece arrancar qualquer sentido que o encosto molhado de vocês pudesse ter guardado.

Mas eu te escuto até o fundo e não consigo deixar de te devolver a pergunta que pulsa nessa mesma dor ardida: se o fogo só ensina a carne a estourar a bolha e virar fuligem amoral, se a desgraça varre tudo pro redemoinho inútil sem deixar lição nenhuma para o amanhã solitário… então de onde vem o latejar que te faz narrar essa queimadura, ainda hoje, sentindo a mesma aflição crua no seu osso sobrevivente? A marca dessa queimadura que você me entrega agora, não é ela mesma a prova de que o calor do Joca não foi inteiramente apagado pela poeira?

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