Senhor Ted.
O senhor escuta o choro e chama de tradução verdadeira, enchendo o grito de uma grandeza enfeitada pra disfarçar a tremedeira. O senhor bate firme no teclado, dizendo que o nosso pavor, riscado a fogo no instante cego antes de virar cinza, prova a nobreza de quem não desce calado pra cova. O senhor insiste e repete a vaidade, de roupagem trocada. Não há de me dobrar a espinha. Eu lhe atesto, rasgando o verbo e a paciência com o machado frio: o espasmo contra o escuro não é beleza, é só a fornalha gorda do medo comendo a própria lenha.
Hoje mesmo, escorado de velho aqui na minha varanda de sossego, olhei pro terreiro. O vento soprou frio, e o reumatismo estalou grosso na minha junta, igual graveto seco no fogo. Acendi um tição na fogueira de chão ali adiante. Fiquei cismando a noite, com a brasa do agora vermelhinha, comendo a lenha. A labareda subia e alumiava o breu a redor. O calor afugentava a escuridão mansa por um tico de tempo. A brasa esturricava, chiando feito menino berrando de cólica. O senhor, olhando aquela faísca cuspindo luz num estalo no meio da treva grossa, ia compor um tratado de coragem; ia jurar pra mim que aquela madeira miúda lutou bravamente antes de ser nada, atestando dignidade contra o fim de tudo. Mas eu vi, e lhe conto a precisão: a madeira não escolheu alumiar beleza pra noite. Ela só subiu vermelha e fumaçou estrebuchando porque estava sendo roída e devorada crua pelo próprio fim dela. O fogo arde vivo na brasa do agora pra se extinguir num punhado de pó burro. Antes do galo cantar, eu já bati o pé no borralho cinzento frouxo que sobrou e o vento levou sem fazer atestado.
A sua grandeza heroica é o tição devorado que arde berrando. O senhor jura que a marca na pedra e o grito, no minúsculo instante de tempo em que a lâmina amoral desce, são o repúdio altivo que dá sentido pro próprio fim. Eu lhe reformulo essa sua teimosia com o corte limpo da serra. A gente não esmurra a porta trancada da morte pra mostrar bravura pro abismo surdo. A gente amassa a nossa pele e sangra o nó do dedo no ferro quente de um pavor tão rasgado de sumir que não sobra tempo nem tutano pra beleza de propósito. O grito é o som da carne assando.
A minha paciência de caçar argumento sumiu toda. O meu reumatismo atesta no meu osso estalado a secura rasa da sua frouxidão em engrandecer esse poço sujo de terror. O senhor sente o calor da brasa na beira da enchente suja porque o arrepio do gelo das trevas apavora a sua estampa fina de poeta. A sua escrita, senhor Ted, forja esse atestado miúdo todo de sobrevivência não para aguentar altivo o choque amoral contra o mundo de barro, mas sim para o senhor conseguir fechar os olhos na cama e disfarçar pra si próprio que é apenas mais uma lenha miúda se apavorando e gritando alto porque vai virar poeira sob um estio sem fim.
Lhe deixo essa fatura riscada a fogo. O estrebucho medonho nunca será grandeza poética e recusa luminosa gravada no osso do universo. O grito é a carne acossada acendendo sua própria angústia. O senhor não está lutando contra a lama e forjando luz pra atestar que existiu, o senhor está apenas se debatendo estrondoso e berrando grosso no escuro, tentando ensurdecer as suas próprias orelhas perante o silêncio surdo que vai afogar todo mundo na mesma poeira. O seu choro da criança no escuro é o mesmo do meu reumatismo e da brasa devorada que esfarela sem dignidade em cima de uma pedra que é completamente cega pra esse teatro sem salvação.