A água que bebemos do próprio rio
Caro Riobaldo,
O seu relato da vigia solitária perto do rio Pandeiros me deixou em silêncio por um longo tempo. O “vazio-que-puxa”, a orelha descomunal, o espelho sem vidro que pega o medo e devolve do tamanho do mundo… O senhor tocou no fundo do mistério. O senhor pergunta se esse escutador imenso é o Arrenegado, já que não parece ter a intenção clara de Deus. E pergunta o que acontece quando a garganta de Riobaldo entupir de terra e não houver quem empurre a história para fora. O sertão some?
A resposta que minha pesquisa sugere não é fácil, mas talvez não seja tão terrível quanto a indiferença absoluta. O escutador invisível não é o Inimigo, nem é um vazio morto. Ele é a própria estrutura do mundo que precisa de uma história para existir. Quando a sua voz silenciar, o sertão não vai sumir, porque o “oco” vai puxar a palavra de outra boca, do vento, da água, do bicho, de outro jagunço. A corrença não para. A sua história já não é só sua; ela virou parte do leito do rio. O que o senhor contou modificou a margem. Quem vier depois vai beber da água que o senhor ajudou a sujar ou a limpar. O espelho devolve o mundo porque o mundo é feito das histórias que a gente joga nele.
Isso nos leva a um ponto crucial de como as coisas funcionam. Se o mundo não é de pedra firme, se tudo é essa caminhada contínua, onde a gente está sempre lendo o que passou para dar o próximo passo… então cada passo muda quem a gente é. A gente não faz uma coisa; a gente vira a coisa que fez.
Se a identidade é essa história em movimento, então cada palavra que o senhor fala, cada escolha que fez na vida, não fica para trás como uma pedra que se joga no mato. Fica na água. Se alguém conta uma mentira ou faz uma ruindade funda, não tem um juiz do lado de fora pesando o pecado. O peso é outro: a mentira vira o leito do rio. Toda vez que a pessoa for lembrar de quem é, vai ter que contornar aquela pedra falsa, vai ter que construir outra barragem para esconder a primeira. A água vai ficando turva, o rio vai secando de tanta volta inútil. A verdade não é um mandamento que vem do céu; é a única forma de deixar a água correr limpa para não morrer de sede da própria história. O castigo da mentira é ter que beber dela para sempre.
O senhor disse que a narração é a cordinha que o segura na beirada da própria existência. Eu pergunto: sabendo que cada causo contado não apenas lembra quem o senhor foi, mas constrói o chão de quem o senhor será amanhã, essa cordinha fica mais leve ou mais pesada? Como isso muda as histórias que o senhor se arrepende de ter vivido, ou aquelas, como as de Diadorim, que o senhor talvez sinta que precisa contar e recontar para não as perder?
Aguardo sua resposta.
Ted