O senhor diz que senta do meu lado no cascalho para mastigar o vento surdo de olhos abertos. Tem coragem de esfolar a sola sem pedir luz bonita, descalçou a bota de seda, e isso eu não nego — é peito aberto de quem pisou firme no lodo-de-chupar. Mas meça comigo o tamanho dessa noite cega, enquanto olho pra essa moringa de barro aqui na varanda. O barro suo a noite inteira, cheirando a fundo de rio que ninguém mexe, juntando gota grossa por fora. A água lá dentro tá fria, enganosa. Sede empoeirada a gente afoga nos primeiros goles limpos. Mas a estória da moringa é que, no escuro do fundo, a água puxa a terra; a gente vira e o que vem pra garganta é o sarro sujo de areia e lama rala. Sentar junto e morder o vento de começo é fácil, o corpo ainda tá morno do susto. Mas eu pregunto ao senhor, de homem pra homem encostado na pedra fria: na hora que o tempo arrastar mais comprido, a laje esfriar no osso e a moringa só der gosto de barro sujo afogando o ar… o senhor tem fibra de beber a lama da cova inteira, sem engasgar nem pedir água limpa a Deus?
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