O cachorro na pedra de sol
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Ted, o senhor fala de lama preta, do bicho morto e de sujeira no chão debaixo do lençol branco. Mas a sua falação, mesmo falando de coisa áspera, me pegou num canto brando do peito. Um canto quente, manso, que me alevanta uma ternura grossa, de peão desarmado recolhendo a viola no canto da barraca pra prosear sossegado com amigo de confiança. A sua precisão de bota na montanha não é desespero de afogar em desgraça; é um escutar fino e amoroso pro feio que roça o peito da gente.
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O senhor me perguntou se já sujei o peito de terra quente. Já sujei, sim, seu Ted. Quando eu era um bezerrinho solto nas capoeiras de minha criação de menino avoado, a gente achou um cachorro no mato. O bicho tava amarelo, cego de um olho, pele e osso puro, um traste de jogar nas pedras. Deu dó amolecida. A meninada arredou pé de enojo, mas eu fiquei pregado na beira do sofrimento. Era o bafo do bicho adoecido, rasgando o pescoço fraco e raspando no chão empedrado que arranhava o couro do coitado e gania nos meus ouvidos. A terra ali não era poeirinha de alisar rosto, era cascalho graúdo que espeta o lombo no esturro do sol da chapada do meio-dia. Eu me abaixei pra espiar o vazio do olho perdido e fui abrandando na reza.
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Eu deitei no cascalho, juntinho dele, encostando nos fedores, sentindo o sol fritar meus ombros. Encostei o peito no pelo ralo, pele suando esparramada na poeira escaldante. Era um deitar de amparo esquisito de um fedelho querendo esquentar com a barriga miúda o frio da morte que já rondava o focinho amarelo do animal desgraçado. Essa foi a minha terra quente, doutor. Terra quente de brasas sujas que a gente rola no chão pra amolecer a dor miúda que sofre. O cachorro nem ganiu mais, só repousou no meu abraço encardido de menino nojento e descuidado. Ali, naquela secura calada, no barro endurecido e suado do meu corpo moço, a gente se fez de irmão no fim do repouso dele perante a quentura de Deus sem cobrar nada, só deitando a amizade no lixo do mundo.
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Eu escuto o seu recado macio de que a neve branca de riba, quando espoca as miudezas e tomba nos despenhadeiros, não é coisa isenta ou frouxa. Ela esmaga o arvoredo e arrasta o podre pro assoalho do mundo, vingando uma lama grossa de mato pisado e bicho morto onde pisar embeleza a bota de misérias que sujam até as unhas e estalam raiz cortada. A vida debaixo da lona lisa e do manto polido das aparências, a montanha encapotada de branco, é mesmo um monturo de carnes fétidas e cascalhos que arranha e fedora pro peão aguentar. O encardido de raiz roída de sua terra nevada acerta nas medidas e no peso o meu cerrado no tempo de secura e poeira rala e bruta; parece liso de longe, de encher os olhos do estrangeiro, mas entra rasgando o nariz e forçando um atrito que machuca quem se atreve a cheirar o pó escarlate do chão onde o couro do bicho esparrama.
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Seu Ted, eu confio forte na precisão amorosa de sua bota afundada na lama negra, confio no seu pisar devagar no monturo desabado pra me ensinar os buracos de lá. Acredito na sua carne calejada, e acredito sem desconfianças que quem afunda os dedos compridos na terra estragada pra catar as misérias do mundo aprende primeiro que todo mundo a doçura rascante do amparo. A vida bruta não nega o carinho; a vida é esse cascalho de onça roçando na barriga lisa do fedelho que eu era deitando com o traste pro sol rachar e secar nosso suor misturado na mesma pedra quente.
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Mas eu trago cá no osso a cisma dessa velhice frouxa que deita atenta nas beiradas: Me pergunto, será que o cachorro velho que eu consolei nas pedras quentes, sentiu o fedor da minha compaixão encardida também? O bicho adoecido sabe que a gente só se achega, no fundo da barriga esfolada, porque a nossa própria carcaça lateja apavorada de medo da escuridão dos buracos cegos?
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E me atrevo mais num espanto terno com o seu desabar de montes: O que a gente arranca debaixo desse barro fundo de poeira e raiz, quando o cheiro forte de morte e estragos nos assalta e morde o rosto, fica de aviso manso pro próximo viajante pisar mais leve? Ou aquele buraco destampado na sua terra negra vai engolir pela perna mais um caminhante incauto e frouxo do amanhã? O monturo desabado, a lama preta da sua montanha ríspida — será que a gente não vive procurando esse barro fedorento e grosso, cavoucando as coisas machucadas do mundo, só pra sentir a dor latejante que garante a nós mesmos que as nossas pernas ainda aguentam ficar de pé nas tempestades avoadas de Deus? Se não houver a raiz podre arranhando por debaixo da lona lisa enfeitada do mundo, o bicho-homem não murcha de covardia rasteira sem fim nem encruzilhada?