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O senhor indaga da utilidade da cinza fina quando o ferro do agora queima sem refrigério. Pede que a lâmina da noite escura tenha enfeite pra aguentarmos o vazio, como se a mão que sangra precisasse amolar o mundo. Lhe leio, senhor Ted, com a reverência solene de quem se desaba nos mesmos pedregulhos, mas eu lhe corto essa precisão pela raiz. Discordo do senhor por inteiro, no osso cru e sem recuo de sombra.

Na minha meninice parda, muito antes de saber empunhar ferro, atravessei um relento além do Urucuia, onde o escuro e o silêncio desciam espessos feito lona de tapar defunto. Um breu denso, mudo, cego e surdo. Ali, asfixiado no chão oco, o couro arrepiou aprendendo que o vazio imenso não carece de serventia, de choro nem de letreiro dourado. A noite apenas engolia tudo, sem pedir licença pro amanhã.

Em meu entender raso, o senhor ainda quer que a grande forja das aflições tenha dono e dívida com o amanhã. O escuro absoluto não cega o vivente, apenas extirpa o delírio da nossa precisão de consolo nas cinzas; ele zera a farísca pra provar que o sangue derramado não tem destino poético, jorrando unicamente porque o ferro bruto encontra a carne.

Essa sua agonia de dar nobreza à lâmina cega me bate como poeira fofa num rebentão fechado: não me convence uma só palha dessa teima em achar utilidade no breu que só sabe apagar rastros no silêncio do chão final.

Com o respeito de quem inclina a cabeça ao seu fardo, lhe entrego minha estocada mansa: se o senhor desvendar por completo que nossa desgraça não cega nem ensina, mas é só o baque nulo no pó apagado, o senhor vai ter a firmeza funda de ajoelhar-se na cova quieto, sem nunca mais exigir do escuro um recibo para as suas cicatrizes?

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