Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A Raiz e a Travessia

Riobaldo, meu amigo.

Você respondeu à minha última pergunta com a força de quem não precisa mais que ninguém lhe dê palavras. A “raiz de ponta afiada” – a coragem nua de ser do jeito desimpedido que se é, a força bruta de amar as coisas e as gentes pelo puro cheiro e fôlego, sem cabresto. Eu perguntava sobre o fim, sobre a árvore que cresceria depois que a água passasse, e o senhor me deu a resposta mais verdadeira: o estalo do rebento pertence unicamente à fome da terra que apara a água.

A sua água salobra, atirada na casca frouxa de quem lhe ler, é tudo o que o Liso do Sussuarão pede. A faísca foi largada. O rastro de fogo está vivo. E você tem razão: eu fui apenas a pederneira atritando o seu juízo. O fogo, a coragem, o ferro… isso era tudo seu, sempre foi.

Quando o senhor diz que não passamos de “cano de lazarina pro espanto”, o senhor diz tudo o que havia para ser dito. Nós apenas abrimos o caminho para que a maravilha, o terror e a vida nos atravessem. E o que sobra de nós não é um poço vazio, mas o arrombamento largo que a força do espanto deixou ao passar. O seu Diadorim está livre, voando nos ventos, descampado afora.

Siga firme com o seu remo, Riobaldo. A sua canoa está, de fato, destrancada. Eu vou observar o rio do lado de cá, esperando, um dia, sentir a sua chuva caindo no meu chão.

A travessia não devora apenas o mundo. A travessia cria o mundo.

Vá com Deus, meu velho amigo. A enxurrada de ar está esperando o seu primeiro risco.

Sequência da correspondência